Senge-DF

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domingo, 12 de dezembro de 2010

Faltam engenheiros na presidência dos países?

Desde 2008, com a eclosão da crise econômica nos Estados Unidos, os analistas procuram as raízes mais profundas do fenômeno. Além da ponta do iceberg que rasgou o casco do Titanic da economia ocidental – o financiamento desordenado do mercado imobiliário americano – outras arestas cortantes do bloco de gelo, chamado Realidade, vez por outra, ao longo destes anos, amergem e fazem outros furinhos na carcaça do já combalido transatlântico, lançado ao mar em Bretton Woods, 1944, e considerado durante 6 décadas insubmergível.

Os remendos que o comandante Obama mobiliza e que a atenta oficialidade - presidentes dos países desenvolvidos - cola ao casco não tornam impermeável a carcaça do Titanic moderno. Os motores parecem não ter força para levar a nau a um porto seguro. Os rebocadores da economia mundial, os países emergentes, que na realidade sempre puxaram, com o seu esforço e em troca de parcos pagamentos, o mastodonte marinho foram chamados, mas não estão conseguindo arrancá-lo do banco de areia que o prende ao fundo nesta viagem, que esperamos não seja a derradeira.

Sem sermos ou pretendermos ser analistas econômicos, a nossa formação profissional e a nossa longa vivência neste Brasil de tantas crises econômicas nos permite distinguir a economia de papel da economia real, a que produz bens e serviços para a sociedade. Aquela não produz nada e gera falsos valores a partir da especulação financeira, com títulos sem lastro trocando de mãos na velocidade da luz, que os computadores permitem.

Os engenheiros são os artífices da economia real. O premiado jornalista argentino Andrés Oppenheimer,  cujos artigos são veiculados em cerca de 60 países, replicados do Miami Herald, em 2005, antes portanto da catátrofe financeira, publicou, sobre o tema, o que reproduzimos abaixo e que recebemos já traduzido de um leitor deste blog.

Os engenheiros brasileiros que após décadas de desvalorização da profissão encontram-se ainda com a autoestima abalada devem ler o artigo e refletir para ver que a saída para uma economia sadia passa pela produção racional de bens e serviços de modo sustentável e que nós engenheiros é que sabemos fazer isso.

Os dados do artigo abaixo são de 2005, mas a realidade mudou pouco. 



FALTAM  ENGENHEIROS  PRESIDENTES
Por Andrés Oppenheimer


Uma das razões pelas quais a Ásia se converteu em uma fábrica do mundo é que, enquanto as universidades asiáticas estão formando um número recorde de engenheiros, suas pares em outras partes do mundo – incluindo os Estados Unidos – estão formando advogados, contadores e psicólogos.
Antes de compartilhar minha teoria de porque os asiáticos estão mais voltados para a Engenharia, vamos aos dados.
Segundo a Fundação Nacional de Ciência (NSF), dos Estados Unidos, em termos numéricos a China é a líder mundial na formação de engenheiros: graduam-se ali cerca de 220.000 por ano. Comparativamente, nos Estados Unidos graduam-se 60.000 por ano; na Coréia do Sul, 57.000; no México, 24.000; no Brasil, 18.000; na Colômbia, 11.000 e na Argentina, 3.000.
Outro estudo, da empresa consultora Engeneering Trends, mostra que, com relação a suas respectivas populações, o país que mais forma engenheiros “per capta” é a Coréia do Sul, seguida por Taiwan e Japão. A Colômbia está em 19.º lugar; Chile em 23.º; México em 24.º; Estados Unidos em 25.º; China em 30.º; Brasil em 35.º e a Argentina em 37.º.
Independentemente de como os contemos – e existe um certo ceticismo sobre esses dados, já que nem todos os países têm os mesmos parâmetros para outorgar graus em Engenharia – não há dúvidas de que os países asiáticos levam uma significativa vantagem.
“Ficar atrás (na formação de engenheiros) é perigoso, porque afeta a capacidade dos países de aumentar sua oferta de produtos manufaturados, diz o fundador da Engineering Trends, Richard Heckel. Os manufaturados são uma indústria de mudanças constantes. Se não há inovações, não há condições de competir”.
Os especialistas em desenvolvimento dizem que se um país quer ser uma potência industrial precisa de pessoas que possam produzir os bens existentes de forma mais eficiente e de pessoas que possam inventar novos produtos. Em ambos os casos necessitam de engenheiros.
Nos Estados Unidos o número de estudantes universitários de Engenharia está estabilizado: é maior do que foi em 1980, quando estava da ordem de 58.000, porém, menor do que no seu máximo em 1986, quando alcançou 77.000.
Na América Latina, a Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) forma cerca de 620 psicólogos por ano, mas apenas 40 graduados em engenharia de petróleo. E a Universidade de Buenos Aires, na Argentina, forma 2.400 advogados por ano, 1.300 psicólogos e somente 240 engenheiros, segundo cifras oficiais.
O Ministro da Educação argentino, Daniel Filmus, disse-me horrorizado, em uma entrevista há alguns meses, que, ao tomar posse, descobriu que em seu país só se graduavam três engenheiros têxteis a cada ano. Desde então o Ministério da Educação criou um fundo apoiado pelo setor privado que oferece 30 bolsas por ano para estudantes de Engenharia e, imediatamente, recebeu 270 pedidos de inscrição, assinalou ele.
“Agora, todas as bolsas do Ministério da Educação são atribuídas a estudantes carentes que sigam Engenharia, ou alguma ciência exata ou estratégica para o país”, disse Filmus.
Que estão fazendo os países asiáticos para estimular os jovens a estudar Engenharia? Além de contar com uma demanda de mercado por engenheiros e em muitos casos com uma cultura que valoriza os cientistas e engenheiros quase como se fossem jogadores de futebol, os líderes asiáticos promovem o estudo da Engenharia, asseguram os especialistas.
“Em muitos países asiáticos, até nos mais altos níveis de governo se fala da importância da ciência e da Engenharia para alcançar o crescimento econômico”, diz Alan Leshner, presidente da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS).
Depois de falar com Leshner me dei conta de que, enquanto o presidente da China, Hu Jintao, é engenheiro hidráulico e quase todo o Comitê Central do Partido Comunista Chinês é composto por engenheiros, em nossa parte do mundo quase não há presidentes que sejam engenheiros.
Nos Estados Unidos o presidente George W. Bush obteve licenciatura em História e um mestrado em Administração de Empresas. Na América Latina a maioria dos presidentes dos países é constituída de advogados, economistas, administradores de empresas, médicos clínicos, psiquiatras, comentaristas esportivos (como em El Salvador) ou militares (como na Venezuela).
Seria importante que se começasse a eleger presidentes que sejam engenheiros, como maneira de buscar a melhora desses países. Ou, o que seria ainda melhor, pressionar os advogados, economistas, psiquiatras e outros que estão nos governos, para que usem sua influência a fim de estimular mais jovens ao estudo da Engenharia.


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Fonte:  Jornal “La Nacion” (Argentina) – 16.08.2005

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

4ª Jornada Cearense de Engenharia

Na última segunda-feira, 29 de novembro, o autor deste blog apresentou a palestra Escassez de Engenheiros e Importação de Cérebros nas 4ª Jornada Cearense de Engenharia. Na sua edição de 2010, o evento realizado pelo Clube de Engenharia do Ceará, liderado, como nos anteriores, pelo ativo engenheiro e professor Luiz Ary Romcy, tem o apoio decidido do Confea, do Crea-CE, da Mútua, da Secretaria de Infra-Estrutura do Estado do Ceará e da Universidade Federal do Ceará. Nas jornadas são discutidas as questões da engenharia e das suas interrelações com estado e com o Brasil.

O engenheiro Danilo Sili Borges apresentou sua visão sobre a propalada escassez de profissionais e a oportunidade de se facilitar, ou não, a entrada de profissionais estrangeiros, que classificou de acordo com a importância que eles poderão ter para o desenvolvimento do país, concluindo que devemos buscar no exterior, numa operação de "repatriamento" os cientistas e engenheiros brasileiros que foram "drenados" por países desenvolvidos. Defendeu ainda a importação de "cérebros", isto é, de profissionais estrangeiros de alta competência em áreas que necessitamos desenvolver e deu exemplos desse procedimento adotado no passado com êxito.
Os slides que apoiaram a palestra podem ser solicitados ao autor pelo e-mail danilosiliborges@gmail.com

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

E a educação no Brasil, como ficará na fita?

O artigo, abaixo transcrito, do conceituado jornalista Thomas Friedman no New York Times trata de um assunto recorrente, o desenvolvimento econômico de um país, sua capacidade de concorrer num mercado global e o nível da sua educação.
Há certamente concordância com todos os seus argumentos e com os dos depoimentos prestados no artigo, escrito para a realidade dos Estados Unidos. O autor não vacila ao afirmar que a capacidade competitiva americana é função da qualidade da educação existente no país. Aponta como principal fator para a melhoria da educação naquele país a valorização dos professores que deveriam ser recrutados no terço mais bem qualificado das turmas de formandos.
Mas eu não estou aqui para re-escrever o artigo, até porque me faltam o talento e o conhecimento do seu autor. Peço é que o leiam e reflitam, extrapolando sua argumentação para a realidade brasileira, sobre como estará o Brasil e sua economia daqui a 30 ou 50 anos, se não tomarmos firmes e urgentíssimas medidas de apoio ao desenvolvimento da educação. Vamos continuar tecnologicamente dependentes e obedientes exportadores de commodities ou vamos nos tornar a civilização dos poderosos “homens e mulheres de bronze?” (Com referência a bela cor da pele da nossa população, resultado da miscigenação e do sol que nos abençoa todos os dias do ano).
Muito tem sido feito para a universalização da educação no Brasil nas últimas décadas, é preciso reconhecer, mas é muito pouco frente ao necessário. Aos formuladores da política estratégica do país e aos seus executores, pede-se que adotem horizontes maiores que quatro anos (um mandato), ou oito anos (o mandato atual e a próxima re-eleição).
Alguns dirão: “Nossa situação é diferente da americana.” E eu responderei: “É verdade, e é muito pior”.
LEIA O ARTIGO.Ensino nos EUA vem sendo superado há anos
 Thomas L. Friedman

 Quando cheguei a Washington em 1988, a Guerra Fria estava acabando e o assunto do momento era segurança nacional e o Departamento de Estado.  Se eu fosse um foca hoje, eu ainda assim gostaria de cobrir o epicentro da segurança nacional – mas ele seria o Departamento da Educação. O presidente Barack Obama acertou quando disse que aquele que "nos superar hoje em educação irá nos superar na concorrência amanhã". A má notícia é que há anos estamos sendo superados na educação. A boa notícia é que os municípios, estados e o governo federal estão contra-atacando. Mas não tenha ilusões. Nós estamos em um buraco.
 Aqui estão alguns poucos dados que o Secretário da Educação, Arne Duncan, ofereceu em um discurso em 4 de novembro: "Um quarto dos  estudantes colegiais americanos abandona a escola ou não se forma no  prazo normal. Quase 1 milhão de estudantes trocam as escolas pelas  ruas a cada ano.  (...) Uma das coletivas de imprensa mais incomuns e  sérias de que  participei no ano passado foi a divulgação de um  relatório por um grupo  de altos generais e almirantes da reserva. Esta  foi a conclusão atordoante do relatório deles: 75% dos jovens  americanos, entre 17 e 24  anos, são incapazes de se alistarem nas  forças armadas atualmente porque  não se formaram no colegial, possuem  ficha criminal ou são fisicamente inaptos". Os jovens americanos atualmente estão empatados no 9º lugar em ingresso no ensino superior.
 "Outros povos nos passaram e estamos pagando economicamente um preço imenso por causa disso", acrescentou Duncan em uma entrevista.  "Mudança incremental não nos levará até onde precisamos ir. Nós temos que ser muito mais ambiciosos. Temos que ser mais contestadores. Não é possível continuar fazendo as mesmas coisas e esperar resultados diferentes." Duncan, com apoio bipartidário, deu início a várias iniciativas para energizar uma reforma – particularmente sua competição Corrida ao Topo, dólares federais destinados aos Estados com as reformas mais  inovadoras  para se chegar aos padrões mais altos. Mas talvez seu maior esforço seja para elevar a profissão do professor. Por quê?
 Tony Wagner, um especialista em educação de Harvard e autor de "The Global Achievement Gap", explicou dessa forma. Há três habilidades básicas que os estudantes precisam caso queiram prosperar em uma economia de conhecimento: a habilidade de realizar pensamento crítico e de solucionar problemas; a habilidade de se comunicar de forma  eficaz; e a  habilidade de colaborar.
 Se você olhar para os países que lideram os testes que medem essas habilidades (como a Finlândia e a Dinamarca), uma coisa se destaca: eles insistem que seus professores venham do um terço superior de suas turmas de formandos universitários. Como Wagner colocou: "Eles transformaram o ensino de um trabalho de linha de montagem para um de  trabalhador de  conhecimento. Eles investiram em peso na forma como recrutam, treinam e apóiam os professores, para atrair e reter os  melhores".
Duncan contesta a noção de que os sindicatos dos professores sempre resistirão a essas mudanças. Ele aponta para os novos contratos de "avanço" em Washington, D.C., New Haven e Hillsborough County,  Flórida, onde os professores abraçaram padrões mais altos de  desempenho em troca de um maior salário para aqueles que exibirem  melhores resultados.
 "Nós temos que recompensar a excelência", ele disse. "Nós tínhamos medo de falar em excelência na educação. Nós tratávamos todos como componentes intercambiáveis. Basta apenas jogar uma criança na sala de aula e um professor na sala de aula." Isso ignorava a diferença entre professores que estão mudando as vidas dos estudantes e aqueles que não. "Se você realiza um ótimo trabalho com os estudantes", ele disse, "nós nunca poderemos lhe pagar o suficiente".
Esse é o motivo para Duncan estar iniciando uma campanha nacional para recrutar novos talentos. "Nós temos que criar no sistema um ambiente e incentivos para que as pessoas queiram ingressar na profissão. Três países que nos superaram – Cingapura, Coreia do Sul e Finlândia – não  deixam lecionar aqueles que não tenham vindo do terço superior de seus  formandos. E na Coreia do Sul eles se referem aos seus professores  como 'construtores da nação'."
A visão de Duncan é que desafiar os professores a atingirem níveis mais altos – usando dados de desempenho do estudante no cálculo do salário, aumentando a concorrência por meio da inovação e diplomas – não é algo antiprofessor. É levar a profissão muito mais a sério e elevá-la para onde deve estar. Há 3,2 milhões de professores ativos atualmente nos Estados Unidos. Na próxima década, metade deles se aposentará. Como recrutaremos, treinaremos, apoiaremos, avaliaremos e compensaremos seus sucessores "moldará o ensino público pelos próximos 30 anos", disse Duncan. Nós temos que fazer isso direito.
 Wagner acha que devemos criar uma academia de West Point para os professores: "Nós precisamos de uma nova Academia Nacional de Educação, seguindo o modelo de nossas academias militares, para elevar o status da profissão e apoiar a pesquisa e desenvolvimento essenciais  para a  reinvenção do ensino, aprendizado e avaliação no século 21".
 São todas boas ideias, mas se quisermos melhores professores, também precisaremos de melhores pais – pais que desliguem a TV e os videogames cuidem para que a lição de casa seja feita, encorajem a leitura e elevem o aprendizado como a habilidade mais importante da  vida. Quanto mais exigirmos dos professores, mais devemos exigir de pais e alunos. Esse é o Contrato para a América que realmente  assegurará nossa segurança nacional.
 Tradução: George El Khouri Andolfato
 Thomas L. Friedman é colunista de assuntos internacionais do New York Times desde 1995. Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

sábado, 13 de novembro de 2010

PELÉ E A MATEMÁTICA

É permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e o endereço deste blog

Eng. Civil Danilo Sili Borges

“Só se pode tirar qualidade da quantidade”
Nos idos anos 50, dei uma contribuição à revelação do nosso Rei Pelé no futebol. É verdade que não foi uma grande contribuição, na realidade se tratou de uma participação infinitesimal no melhor sentido matemático do termo. Eu e todos os garotos nascidos nos anos 40 amávamos – e amamos – futebol, e o praticávamos nos terrenos baldios das nossas vizinhanças. Tal como os garotos de hoje, sonhávamos em chegar a ser um sucesso nesse esporte. E como nos esforçávamos para isso! Pouco a pouco fui percebendo que o meu relacionamento com a bola não era dos melhores. Ela tinha vontade própria e raramente atendia aos estímulos que lhe dava. Em suma, eu era um perna de pau. Fui, é claro, sonhar outros sonhos. Mas o futebol faz parte de mim. Torço, discuto, vou aos estádios, assino os pay-per-view das TVs fechadas e até há pouco tempo, enquanto a idade permitiu, joguei peladas nos fim de semana. Sou um brasileiro típico da minha geração.
O que será que tem a ver o sucesso, já mais que cinquentenário, do Pelé com minhas experiências e frustrações futebolísticas?
Fomos nós, os meninos dos anos 40, que possibilitamos – nós éramos a quantidade – que surgisse o Pelé, o Gerson, o Jairzinho – eles eram a qualidade. Ganhou o futebol e a autoestima nacional com as vitórias nos estádios e sua repercussão entre todos os brasileiros, que aprenderam cedo a amá-lo. Certamente você já percebeu a ideia e deve a estar criticando e alegando algo parecido com “já tivemos uma campeã mundial de tênis, a excepcional Maria Ester Bueno, nos anos 50 ou 60, numa época em que o tênis era incipiente no Brasil”. Isso são fenômenos da estatística que, aliás, nós perseguimos semanalmente ao jogarmos na Megasena, sabendo que a probabilidade de sucesso é infinitesimal, no mesmo sentido usado acima.
A matemática é a linguagem da ciência e da tecnologia, quem não a conhece no nível adequado às suas atividades é uma espécie de analfabeto. Boa parte do que fizer no trabalho ou no seu dia a dia será pelo uso da improvisação, do empirismo. Será como tocar um instrumento sem conhecer teoria musical, só se pode tocar de ouvido.
Se o Brasil pretende ser um país desenvolvido, é necessário que adquira competência em ciência e tecnologia. O esforço de incentivos para essas áreas até existe, mas aplicado na ponta superior do segmento, onde se espera que estejam os Gérsons, os Jairzinhos, os Pelés. No Brasil, os nossos cientistas, os mais brilhantes, são Marias Ester que surgiram na contramão da estatística.
Se quisermos desenvolver ciência e tecnologia, temos que buscar competência em matemática nos seus diversos níveis. Só assim veremos surgir os Pelés no assunto, não vale a pena continuar insistindo na Megasena. O assunto é importante demais para o Brasil, não dá para ficarmos arriscando uma aposta de 6,00 reais toda semana e esperando o bafejo da sorte.
Mesmo com a campanha deflagrada pelas entidades de representação profissional dos engenheiros quanto a uma futura falta de engenheiros no País em função de um desenvolvimento econômico recorde, e do eco que fazem as instituições que oferecem cursos de engenharia e que têm 70% de ociosidade em cursos dessa profissão, os jovens brasileiros não se animam a enfrentar um curso cuja base em matemática é fundamental.
A matemática ganhou fama de difícil, quase impenetrável. Muitos dos concursos públicos, ou não programam provas de matemática, ou a cobram de modo tímido, quase pedindo desculpas, sob a denominação de Raciocínio Lógico. Com o medo dos cálculos e do pensar com harmonia, fingimos que não precisamos da matéria, na posição típica de avestruz com a cabeça enterrada no chão e o rabo para o alto – e isso é um perigo.
Determinadas formações profissionais, que têm na matemática uma ferramenta importante, divulgam com frequência que estão em estudos alterações curriculares para retirar as disciplinas de matemática do currículo. Uma lástima e um atestado de burrice institucional, mas de esperteza dos donos dos cursos. Se pudessem fazer isso com a engenharia as salas estariam cheias.
Será a matemática de uso corrente, do dia a dia das pessoas, algo tão hermético? Claro que não. A disciplina é encadeada. O estudante tem que dominá-la passo a passo, evitando vazios na formação, isso em qualquer etapa. O problema reside principalmente na falta de valorização da matéria, desde o ensino fundamental. Boa parte dos professores desse nível não está preparada para ministrar aulas do assunto e aí entramos num círculo vicioso.   Nessa questão, um mau começo se reflete de tal modo que indisposições permanentes são criadas. Como consequência: matemática é impossível de aprender.
A saída é a reciclagem imediata dos docentes do nível fundamental e de todos os outros níveis. Valorizemos os jovens que dominam a matemática. Estabeleçamos certames e campeonatos. Prêmios, bolsas, estágios bem remunerados, reportagens nos jornais e na TV. Glamourizemos os que se destacam. Criemos os Pelés, os Gérsons, os Jairzinhos da álgebra, dos cálculos, da trigonometria, dos determinantes, da integração e da diferenciação. Tratemos a matemática como tratamos o futebol e o voleibol.  
Vamos jogar matemática? Pergunta o menino de dez anos ao amiguinho.
– Só se for regra de três, em soma de frações você é muito bom, não dá prá mim, responde o outro.
– Geometria então, nós dois sabemos resolver problemas de áreas.

Sonhar é preciso.

Para ajudar aos mais novos a entender:
1 - Gerson e Jairzinho foram campeões mundiais, juntamente com Pelé em 1970.
2 - Maria Ester Bueno foi campeã mundial de tênis nos anos 50. Era considerada um fenômeno nesse esporte, popular em todo o mundo e um orgulho nacional.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Futurologia (1928) – Energia no Brasil em 2000

O primeiro número da Revista O Cruzeiro foi publicado em 10 de novembro de 1928. A revista, referência da imprensa brasileira por muitas décadas, marcou gerações com suas matérias. Para situar os leitores mais novos, cito que a publicação semanal notabilizou personagens como o Amigo da Onça – expressão até hoje citada – criação do humorista Péricles; publicava também crônicas da escritora Rachel de Queiroz e reportagens do combativo David Nasser, que era além de jornalista um compositor de músicas de sucesso, até hoje relembradas. Para os que tiverem interesse, o site Memória Viva, http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro/ , disponibiliza diversos números da revista com matérias digitalizadas. Lê-las é uma viagem divertida e instrutiva ao passado.

Nesse primeiro número há para os engenheiros um interessante exercício de futurologia do Professor F. Labouriau, então catedrático de Metalurgia da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, sobre a energia hidroelétrica, sua então provável evolução e os avanços que ela propiciaria. Confira, cotejando as previsões do Prof. Labouriau com a realidade deste ano de 2010.

Para facilitar a leitura e as comparações relaciono a seguir alguns dados de interesse:
  • 1 cv (cavalo-vapor) = 0,7355kW
  • Potencial Hidroelétrico do Brasil – inventário recente: 260 mil MW (350 milhões de cv)
  • Passível de exploração: de 70 mil MW a 120 mil MW
  • Potência instalada em 1928 (estimada): 350 MW (476 mil cv)
  • Potência instalada atualmente: aproximadamente 60 mil MW (82 milhões de cv)


A Éra das Forças Hydraulicas

Revista O CRUZEIRO 10/11/1928  Prof. Labouriau


Anno 2000.
A população do Brasil attingiu 200 milhões de pessoas a precisarem de energia para as suas multiplas actividades: compreende-se como essa necessidade levou ao aproveitamento das forças hydraulicas. Lentamente, medrosamente, a principio, essa utilização de energia se foi, depois, aos poucos accelerando. No anno 2000 já estão longe os tempos em que ainda se importavam carvão e petroleo! Esses recursos primitivos, condemnados pelo progresso da technica, foram desapparecendo, passando a constituir apenas uma recordação historica.
Os 50 milhões de cavallos-vapor de energia hydro-electrica, utilizados no Brasil, no anno 2000, equivalendo ao trabalho mecanico de 600 milhões de homens, a população brasileira, do ponto de vista energetico, é então computavel em 800 milhões. Nessas condições, não admira que sejam enfrentados e convenientemente resolvidos os problemas da producção. As questões nacionaes são, então, estudadas por gente competente, tendo acabado, ha muito, a influencia dos politicos profissionaes. A Natureza, dia a dia dominada, é cada vez mais perfeitamente aproveitada. A luta do homem para o progresso passou a ser travada especialmente nos laboratorios de pesquisa. Ahi é que perscrutam, pacientemente, os segredos da Natureza, e dahi é que saem os processos, cada vez mais aperfeiçoados, de dominio da energia cosmica. Como estamos longe dos tempos em que nem havia Universidade no Brasil, a nao ser umas instituições de fachada, formadas por escolas exclusivamente para ensino profissional, e onde a pesquisa scientifica não se podia fazer!
Todas as actividades industriaes foram avassaladas pela energia electrica. São as industrias electro-chimicas, num desdobramento maravilhoso; é a electro-metallurgia; é, ainda, a energia para tudo. As distancias desappareceram, por assim dizer, desde que se resolveu o problema de irradiação da energia.
Lembram-se todos como começou a ser resolvida essa questão. Foi, a principio, a radio-telephonia, logo seguida da radio-photographia. Pouco depois, irradiava-se energia pra fins industriaes, e os motores electricos com energia irradiada se installaram em todos os vehiculos: bondes, trens, automoveis, aeroplanos, navios; e em todas as fabricas; e em todos os logares onde a energia se faz precisa. O problema da distribuição da energia passou, desde então, a ser uma questão definitivamente resolvida.
Transformara-se, com isso, a vida, que Nietzsche affirmou ser, essencialmente, uma aspiração á maior somma de poder, numa vontade que permanece, intima e profunda, em todo ser vivo. A luta pela existencia, pelo poder, pela preponderancia, com a nova forma de distribuição de energia passara a ser uma luta pela posse da energia electrica. A importancia dos povos se alterara, sendo regida a sua classificação pelo valor das reservas em forças hydraulicas.
É assim que o 1° lugar passara a ser da Africa, com os seus 190 milhões de cavallos-vapor hydro-electricos. Em 2° logar vinha a Asia, com 71 milhões. A America do Norte, com 62 milhões, ficara em 3° logar, e a America do Sul em 4° logar, com 60 milhoes de cavallos-vapor hydro-electricos, dos quase 50 cabendo ao Brasil. A Europa, com 45 milhões de cavallos, ficara tendo atrás de si unicamente a Oceania, com 17 milhões.
Cabia agora o dominio aos povos que dispunham de maior somma de energia hydro-electrica. Passara o tempo do imperialismo do carvão e do petroleo, e chegara a era da energia electrica. Os 445 milhões de cavallos-vapor, em que se orçara a energia total das forças hydraulicas da Terra, passaram a regular decisivamente a importancia relativa das 5 partes do mundo.
Ainda ha, no anno 2000, philosophos a indagarem se o progresso existe, affirmando que o que interessa não é poder ser enviado o pensamento á volta da terra, em alguns segundos, mas sim saber se esse pensamento é melhor, mais profundamente humano, mais justo. A vida, em todo caso, mudou completamente. Melhor? Peor? - É difficil sabe-lo. Mas, seguramente, é differente. É a era da electricidade.        
A differença entre a vida de então e a dos anteriores é alguma coisa como a differença hoje existente entre a vida dss grandes cidades e a do campo. O ambiente é outro. Outra é a organização da vida. Cada vez o homem se afasta mais da Natureza. Primeiro, liberta-se do dia e da noite. A luz artifical permitte-lhe a vida nocturna absolutamente igual á do dia; a luz solar não é mais reguladora dos habitos quotidianos. A vida em grandes aglomerações vae, aos poucos, deixando em todos os habitos a sua marca. As facilidades augmentam para tudo e os multiplos actos da vida se vão, lentamente mas constantemente, adaptando á nova ordem das coisas. O tempo se distribue de outro modo, e os affazeres são outros. Outros são, tambem, os divertimentos. Insensivelmente, as differenças se vão accentuando.
As viagens e os proprios passeios diminuiram muito, desde que, sem sair de casa, pode-se ver o que ha em qualquer parte da Terra: a televisão, juntada á telephonia, modificou radicalmente os habitos. Não ha necessidade de sair para fazer compras: vê-se, escolhe-se, encommenda-se tupo pelo telephone-televisor automatico. Não ha mais necessidade de viajar, para ver terras longinquas: é só ligar o receptor, e visita-se, commodamente, qualquer museu, ou qualquer paiz. Sómente os objectos devem ser transportados.
Na era da electricidade o rei dos metaes é o aluminio, retirado das argilas pela energia electrica. O aluminio supplantou, com as suas ligas, o ferro, pesado demais e facilmente oxydavel, e ainda substitui o papel, tão facilmente deterioravel. De aluminio são os livros. É em folhas de aluminio que se escreve.
A era da electricidade se caracteriza, essencialmente, pelo emprego da electricidade em todas as formas de energia. Energia luminosa: tudo se iluminna electricamente. Energia chimica: tudo deriva da electricidade. Energia thermica: tudo se aquece ou se resfria pela electricidade. Energia mecanica: tudo se movimenta pela electricidade.
Servindo para tudo, a energia electrica passa a ser a nova moeda. O ouro e as suas representações são formas obsoletas de medir valores. A moeda, no anno 2000, é, tambem, a energia electrica. Pagam-se as compras em kilowatts. Paga-se o trabalho en kilowatts.
A revolução trazida é principalmente nos habitos. Continúa a haver desigualdades sociaes. Ha ricos, possuidores de milhões de killowatts-horas, remediados, que têm alguns milhares de unidades de energia; e pobres, que dispõem apenas de algumas unidades. É verdade que não ha mais fome, desde a adopção do trabalho obrigatorio minimo, nas usinas distribuidoras de energia. Mas as questões sociaes continuam.
Muitos pretendem estender o dominio da actividade industrial do Estado. Parece-lhes insufficiente o monopolio governamental das usinas geradoras e distribuidoras de energia. Começou a questão a proposito da regularização do clima. Uma vez reservada para o Estado a faculdade de provocar as chuvas pela energia irradiada ás nuvens, determinando-lhes a condensação, pareceu a muitos que se deveriam ampliar ainda mais as horas de trabalho obrigatorio minimo, servir-se-ia melhor a colectividade minima do trabalho. Só haveria vantagens nisso.
Objectam, porém, alguns ser o caso das usinas de energia, evidentemente, especial. Da mesma forma, o da distribuição das chuvas, vantajosamente affecto ás autoridades, para beneficio geral. A Repartição das Chuvas, dispondo de todo o serviço official de estatistica, e em connexão com os demais repartições do Ministerio da Agricultura, é uma organização que se resolveu dever ser do Estado. Ampliar, porém, ainda mais os serviços governamentaes, numa socialização progressiva de todas as actividades, não merece as sympathias de um grupo numeroso. Já todos os homens e todas as mulheres, maiores de 18 annos, são obrigados a um serviço diario de 2 horas. Breve serão 3 horas. Onde se irá para nesse caminho? Invocam-se contra as idéias de socialização os velhos principios da liberdade individual. A questão está, assim, longe de ser resolvida.
Sonho? - Sim. Mas o sonho de hoje poderá ser, amanhã, realidade. Sabe-se lá até onde nos levará a evolução que hoje se processa tão acceleradamente? Como será a vida no anno 2000?

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Voz do engenheiro, um bom jornal

É permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e o endereço deste blog

Eng. Civil Danilo Sili Borges

Os informativos e boletins, impressos ou eletrônicos, das nossas entidades de classe raramente nos despertam a atenção para suas matérias. Ou nem os acessamos em nossos computadores, ou os colocamos, após uma rápida olhadela, na mesa de publicações destinadas aos visitantes eventuais dos nossos escritórios, que os folheiam enquanto aguardam atendimento. Assuntos excessivamente corporativos ou posições ideológicas e político-partidárias radicais afastam de imediato os leitores potenciais.
O jornal do Senge-DF, Voz do Engenheiro, de alguns números para cá, tem veiculado matérias de relevante interesse. O número seis (6) trouxe um estudo histórico da construção de Brasília, comemorativo dos cinquenta anos da inauguração da cidade. Além de graficamente bem apresentado, o exemplar citado contém matérias que permitem reviver o tempo heróico da construção da capital. Muitos guardamos o exemplar para consultas.
O número sete (7), que está sendo distribuído neste fim de outubro, apresenta algumas matérias dignas de serem mencionadas. A entrevista com o Reitor da Unicamp, Fernando Costa, é uma delas. Lúcido, sobre as questões da educação no Brasil, aponta caminhos para a melhoria da formação dos engenheiros. Escorrega apenas ao citar boas universidades estrangeiras como admitindo estudantes para o curso de engenharia, sem, nessa etapa, diferenciar a modalidade, só o fazendo alguns semestres depois, quando o estudante já adquiriu informações e mais maturidade para escolher de modo mais bem fundamentado. Como o Reitor é ainda jovem, está perdoado: o retardar a escolha da modalidade era a prática da quase totalidade dos cursos de engenharia no Brasil. Quem praticamente acabou com isso foi a centralização extrema das normas educacionais que não atendem às especificidades de cada profissão.
A matéria de capa, É preciso planejar, faz um histórico do planejamento nas atividades humanas, mas longe de ser sectário, mostra, através de abalizados depoimentos, a razão pela qual devemos adotar o planejamento nas nossas atividades profissionais.  Alerta para uma excessiva burocratização do planejamento, que muitas vezes se verifica nas atividades governamentais.
 Por fim, Colhendo o Futuro, é uma radiografia da Embrapa, mostra como uma criteriosa preparação de quadros competentes pode mudar as feições do país num determinado segmento tecnológico e econômico. Como gato escaldado tem medo de água fria, o presidente da empresa, Pedro Arraes, faz, ao longo da matéria, a defesa de recursos para o crescimento da empresa. A pregação se justifica se lembrarmos que a Embrapa quase foi destruída no início dos anos 90 por ações impensadas do governo de então, que felizmente durou pouco.
Parabéns ao Senge-DF , aos que cuidam da publicação Voz do Engenheiro, que faz política no melhor sentido da expressão.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Brasília tremeu

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Eng. Civil Danilo Sili Borges

Sexta-feira, 08 de outubro de 2010, 17h17, cinco dias depois do primeiro turno das eleições, Brasília tremeu. Houve quem pensasse que era devido ao foguetório que talvez estivesse sendo produzido pelas torcidas organizadas – militâncias – dos dois candidatos. A questão era mais profunda! A 14,8 km da superfície e à distância de 130 km da capital do Brasil, no município de Mara Rosa, no norte goiano, quase estado de Tocantins, se deu uma forte liberação de energia, possivelmente provocada pelo deslocamento de grandes blocos de rocha e pelas pressões que nessa situação passam a exercer entre si.

A população do município goiano levou um “bruta susto”. A energia desprendida no fenômeno viajou a uma velocidade de cerca de seis (6) km/s, em ondas sísmicas e rapidamente chegou até Brasília.

Como tremor o episódio, felizmente, foi modesto apesar da quantidade de energia liberada, que fez oscilar uma área de milhares de quilômetros quadrados com elevada profundidade. A natureza é um depósito infinito de energia e ininterruptamente nos mostra sua abundância energética, basta um olhar para o sol se não quisermos aprofundar mais essa discussão.  A humanidade, no entanto, é carente desse bem A nossa orgulhosa tecnologia não conseguiu extrair senão parcelas ínfimas de energia diretamente da matéria pela fissão nuclear, a altos custos e com grandes riscos de desastres e de contaminação.  Talvez não sejamos tão onipotentes quanto cremos.

O tremor de magnitude entre 4,6 e 5,0 na escala Richter foi sentido por parte da população. Na ocorrência de um sismo, nos prédios com fundações em terrenos menos consistentes, a construção é mais afetada e os habitantes sentem mais os deslocamentos. Quem estiver nos andares mais altos de uma edificação terá maior probabilidade de sentir os efeitos do fenômeno telúrico. Em alguns edifícios públicos e comerciais a ordem foi de evacuação e o fim de semana começou alguns minutos mais cedo, mas com um friozinho na barriga e a pergunta: poderá ocorrer outro tremor mais forte? As histórias recentes dos terremotos no Haiti e no Chile vieram às cabeças de todos.

Os grandes sismos ocorrem geralmente nas franjas das falhas tectônicas, que são as junções de placas que formam parte da litosfera terrestre, e que se movimentam umas em relação a outras provocando tensões que acabam superando os limites elásticos do material de que são constituídas e liberando fantásticas quantidades de energia. No território brasileiro não ocorre nenhuma dessas falhas entre placas, diz-se que o Brasil está situado na intraplaca Sul-Americana e longe de seus bordos, o que nos garante uma atividade sísmica modesta. Modesta, mas não inexistente. O maior tremor registrado no Brasil foi de grau 6,6 na Serra do Tombador, no estado de Mato Grosso, em 1955.

Os tremores podem ter diversas causas, algumas até provocadas pela ação humana, como a construção de barragens, explosões de bombas nucleares, retirada de água ou de gases subterrâneos, além daqueles de gênese geológica.

Até há algumas décadas, apenas as grandes obras especiais – barragens, centrais nucleares e pontes de grandes proporções recebiam no projeto estrutural verificações quanto à segurança a sismos, muitas vezes utilizando-se normas ou procedimentos estrangeiros para esse fim. Os projetos estruturais de obras correntes de edifícios e outras não eram contemplados com essa questão. Alguns fatos levaram a que os engenheiros passassem a ter preocupações com a segurança estrutural a sismos: o estudo aprofundado da ocorrência de um terremoto de grandes proporções, acima de 8 graus, numa região intraplaca nos Estados Unidos, o adensamento populacional das nossas cidades com o aumento da altura dos edifícios, a incerteza da ocorrência e das causas dos fenômenos geológicos, a pequena história dos registros sísmicos, de no máximo 500 anos, curto para esse tipo de fenômeno. E principalmente os recursos disponíveis para a análise estrutural com a intensificação do uso dos computadores e de softwares com capacidade de analisar fenômenos do campo da dinâmica estrutural.

As normas brasileiras da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT – absorveram essas necessidades. A NBR 6118:2003 – Projeto de estrutura de concreto – Procedimento – já estabelece algumas recomendações que se consubstanciam na NBR 15421:2006 – Projeto de Estruturas Resistentes a Sismos – Procedimento.

As estruturas correntes até então eram projetadas para cargas estáticas, mas os sismos e os ventos (cargas eólicas) se dão em tempos curtos configurando carregamentos dinâmicos. Além da intensidade das cargas aplicadas, as prescrições normativas evitam que a freqüência própria da estrutura projetada esteja próxima da frequência da energia transmitida pelo sismo, que se ocorresse, poderia ensejar o fenômeno da ressonância, com danosas consequências para a estabilidade da obra.

O gráfico mostra a distribuição dos sismos no Brasil.


O território nacional está dividido em cinco regiões com características sísmicas diferentes, mas sempre moderadas.

A engenharia estrutural está atenta a essa questão e as novas construções têm um grau de segurança maior que as mais antigas, quando as peças da estrutura – pilares, vigas, lajes – eram consideradas como independentes, sem formar um todo monolítico. De qualquer modo as reservas de resistência das estruturas e a moderada atividade sísmica do país nos permitem uma relativa tranquilidade. 
Digo relativa tranquilidade, pois há muitas incertezas no comportamento dinâmico da geologia do planeta. Afinal vivemos sobre uma esfera de raio pouco maior que 6300km, pequena, muito pequena na escala do Universo, solta na cauda da nossa Via Láctea, seguindo as leis da gravitação e sujeita até mesmo a colisões com outros objetos cósmicos. Será que a segurança quanto aos fenômenos planetários é mesmo algo que nos deva tirar o sono? Ou devemos refletir sobre eles para pesarmos a nossa fragilidade e pequenez e para reduzirmos o nosso orgulho e a nossa ferocidade?

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Massa Crítica e a Cultura de uma Organização - um caso vivido

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Diz o ditado que “uma andorinha só não faz verão”. Que número mínimo de andorinhas será necessário para que o sol brilhe sobranceiro nos céus, que os dias se tornem maiores e que os termômetros atinjam 40°C?
Os engenheiros há muito conhecem o conceito de carga crítica como aquela que provoca a flambagem numa peça comprimida. Flambagem é a perda da capacidade de suporte da peça e a sua consequente ruptura. O sistema que estava em equilíbrio para cargas menores que a carga crítica perde esse equilíbrio e se torna instável quando a carga atinge o valor citado e procura uma nova configuração de equilíbrio.  Essa ideia se generalizou. A instabilidade de um sistema, seja físico ou de outra natureza, é hoje bem estudada inclusive em fenômenos verificados em organizações sociais onde sua quantificação matemática quase nunca é possível como o é no caso da flambagem.
O conceito específico de massa crítica é proveniente da Física Nuclear e tem uma explicação coloquial, dada por Denis Russo e que será útil aos nossos propósitos neste texto:
“Massa crítica é uma expressão da física nuclear. Quando um átomo se quebra, o nêutron sai voando. Mas átomos são lugares muito vazios. Tão vazios que o mais provável é que esse nêutron voador escape sem bater em nada. Só que, se houver uma porção de átomos arrebentando ao mesmo tempo, aí vai voar nêutron para todo lado. Serão tantos que pelo menos alguns podem acertar outros átomos. Cada átomo atingido vai estourar também, liberando outro nêutron, que bate em outro átomo, e outro e outro. Aí, meu caro, acontece uma explosão nuclear (reação em cadeia) *. Massa crítica é a quantidade mínima (de matéria) * necessária para que essa reação em cadeia aconteça.”
* As expressões em parênteses foram acrescentadas pelo autor deste texto.
Note-se a similaridade das duas situações descritas. Enquanto a massa colocada na reação não atinge o valor crítico o sistema retorna a sua situação de equilíbrio inicial e a reação em cadeia não se estabelece. Quando a massa atinge o valor crítico, o equilíbrio inicial se rompe e o sistema procura uma nova configuração, agora de reação em cadeia.
O conceito de massa crítica foi transposto para a administração de universidades e centros de pesquisa, isso já há muito tempo. O que se observou foi que para se desenvolver, por exemplo, uma linha de pesquisa de um novo objeto, não é suficiente se importar para o centro de pesquisa “o cabeção” no assunto, é importante que haja um número considerável de conhecedores e de interessados no mesmo para que se estabeleça a dinâmica procurada. O número de pesquisadores necessários para que a reação em cadeia ocorra é o que se chama de massa crítica, neste caso. Ele não é um número matematicamente determinado, mas o conceito vale muito bem para o entendimento do sucesso ou do fracasso de uma experiência na implantação de um setor como o descrito.
Tivemos a oportunidade de usar o mesmo conceito no texto Importação de Cérebros, veiculado neste blog, quando descrevemos que ao se aumentar o número de pesquisas numa sociedade, entra-se num processo exponencial, mais que proporcional, no qual quanto mais pesquisas são feitas, mais pesquisas se seguirão até que ocorra uma espécie de explosão. Isso se pode dar no âmbito de um laboratório, de um centro de pesquisas ou num país. É um fenômeno sinérgico presente em inúmeras situações. A ocorrência de um sistema em estado crítico é, em alguns casos procurada, desejada, mas em outros deve ser evitada, por ser perniciosa, como na maioria dos casos de flambagem.
Há alguns meses, um ex-aluno, empresário, dono de uma construtora de porte médio, trabalhando prioritariamente com construções especiais por todo o país procurou-me, na condição de consultor, para ver se eu podia ajudá-lo numa questão que estava ocorrendo na sua empresa, agora liderada por seu filho mais velho, também engenheiro.
 A empresa, com quase trinta e cinco anos de funcionamento, teve seu fundador afastado para uma justa aposentadoria. O novo dirigente, no vigor da sua juventude de pouco mais de três décadas, resolveu adotar métodos mais modernos de gerência. De modo muito correto, começou por atuar na sua atividade fim e fez um curso de gerenciamento de obras. A possibilidade de ter, agregado aos projetos de engenharia, um projeto detalhado do gerenciamento das obras, integrando etapas, custos, riscos, alternativas maravilhou-o e ele ficou certo de que havia encontrado o que procurava para aumentar a produtividade e para ter a empresa realmente na mão.
Júnior, o jovem engenheiro, então, contratou para a empresa um especialista no gerenciamento de obras, por indicação de um professor do curso que frequentara e apostou nele todas as fichas. Despesas com softwares, nova rede de informática para suportar o serviço, agora todo automatizado e... uma grande confusão.
Nessa etapa, o meu amigo, retornando de sua primeira aventura pós-aposentadoria, um périplo de 90 dias pela Europa, encontrou sua amada empresa em meio a adaptações aos novos tempos. Recebeu seus engenheiros, antigos auxiliares dos heróicos tempos das primeiras obras, inseguros e até indignados. A adaptação estava sendo dolorosa. No entender desses velhos profissionais, muita conversa e poucos resultados. Um que lhe era mais íntimo, visivelmente irritado, lhe disse:
  - Todas essas coisas somente são possíveis com computadores. Que é uma máquina inventada para resolver problemas que antes dele não existiam.
Meu amigo, com sua habitual lhaneza, argumentou que as empresas que não se atualizarem terão vida curta no mundo corporativo rudemente competitivo da atualidade.
 - OK, mas nós fazíamos obras bem antes dessas novidades, aliás, a humanidade tem feito obras, grandes obras, sem toda essa parafernália. Brasília foi construída em menos de quatro anos sem nada disso. Ponte Rio - Niterói, as catedrais da Europa, Tucuruí, Itaipu, homem na Lua em 1969, Jardins da Babilônia, as Pirâmides....
O ambiente estava tenso, acho que mais para um psicólogo empresarial que para um velho engenheiro, consultor em negócios de engenharia. Logo percebi que a questão não era técnica e nem econômica. Conversei com o perito em gerenciamento de obras e o senti muito seguro do seu conhecimento e dos resultados que poderia alcançar. Mais seguro até do que seria de se esperar. Falou-me de sua pósgraduação no exterior e de como as obras eram gerenciadas nos países mais desenvolvidos. Foi taxativo ao me dizer:
- Pert-CPM, Diagrama de Gantt, Caminho Crítico tudo isso já morreu e está enterrado. Hoje existem softwares que nos fazem literalmente ter a obra na ponta dos dedos, de modo integrado.
Esclareço que não estava pregando a aplicação desses procedimentos antigos, se bem que hoje eles estão automatizados e são bastante utilizados, mas os meus quase 70 anos devem tê-lo induzido a pensar isso. Juro que até senti falta de ar como se estivesse sendo enterrado com o Pert, no mesmo ataúde. Seria esse o meu caminho crítico?
Com muito tato e com a ajuda do velho engenheiro, meu amigo, e também do Júnior conseguimos acalmar o moço. Agora já mais normal e tendo tirado os sapatos altos da competência exclusiva, pude insinuar que ele deveria preparar o pessoal da empresa para a metodologia que estava sendo implantada, ou trazendo um treinamento para a empresa, através da contratação de um dos cursos existentes no mercado, ou mandando alguns dos profissionais da empresa cursarem MBAs nessa especialidade.
A sugestão, além de retratar o que eu de fato penso, era também um teste para avaliar a posição do especialista, a qual eu já pressupunha. Primeiro ele desconversou, ignorando a proposta. Eu insisti. Visivelmente incomodado ele alegou que isso era desnecessário, uma despesa sem precisão. Ele mesmo poderia dar o treinamento.
O diagnóstico estava feito. A implantação da nova metodologia, moderna e útil, só poderia ser levada a cabo, com êxito, através de uma alteração da cultura da empresa. Em primeiro lugar pela preparação de um número de protagonistas que conhecessem o assunto – formação de massa crítica. Em segundo lugar, que o especialista abrisse mão de querer ser o único dono do assunto, que fosse menos rude no trato (certamente provocado pelo medo de perder sua posição) e trabalhasse com menos orgulho e menos egoísmo.
Almocei no dia seguinte com o meu amigo e o Júnior. Passei-lhes as minhas avaliações verbalmente, além de explicar-lhes que essas mudanças culturais exigem tempo e paciência e que não podem ser conduzidas por pessoas, por mais competentes que sejam, que queiram fazer mistério dos seus conhecimentos, além de supervalorizá-los. À tarde retornei a Brasília, redigi minhas observações e as enviei de imediato.
Por e-mail estou acompanhando a evolução da questão. O Júnior teve uma dura conversa com o especialista, que acabou concordando em adotar um procedimento mais aberto e facilitar a preparação do pessoal. Três engenheiros mais novos estão cursando um MBA. A empresa disponibilizou uma bibliografia específica e o nosso perito está acessível a perguntas e a uma integração sem críticas destrutivas e sem grosserias que tinham origem na sua insegurança. As últimas mensagens dão conta de que o processo de aculturação da empresa está indo bem. Já estão administrando duas obras novas pela metodologia, a título experimental, não há crises de vaidades feridas, nem de pretensões expostas. O espírito é de colaboração. O processo é liderado pelo Júnior, com a sua autoridade de presidente da organização.
Meu amigo e a esposa estão planejando uma visita à Ásia, para intensificarem seus conhecimentos na filosofia budista.
Quantas andorinhas são necessárias para fazer verão?
Todas as que possam contribuir para que o frio da rispidez, da vaidade, do medo e do egocentrismo seja trocado pelo calor trazido pelos ventos mornos da boa educação e do espírito de colaboração. É assim na empresa, é assim na vida.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Recados

Quando você estiver lidando com uma pessoa agressiva e rude, procure entendê-la, ela certamente está muito insegura, Seu coração está descompassado pelo medo.

domingo, 3 de outubro de 2010

Calçadas de Brasília

É permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e o endereço deste blog 
Existem modas para tudo. As saias das moças sobem e descem acima e abaixo dos joelhos; o salmão passa a ser mais conhecido como cor do que como um delicioso peixe; as tatuagens e piercings enfeitam as costas, os braços, as pernas e dizem que até outras partes dos corpos dos jovens e das jovens. Também nas áreas da engenharia elas surgem e durante algum tempo se impõem. Processos construtivos, métodos de cálculo, equipamentos, materiais têm suas épocas. Apesar de modas, quando ocorrem situações meritórias um bom resíduo fica no fundo do cadinho, enquanto a impureza se esvai como fumaça.
Penso que em todas as profissões existam modas. Muitas vezes elas têm motivos práticos, pecuniários ou não. Vejamos na medicina: um alto percentual dos nascidos nos anos 40 ou 50 não têm amígdalas, outro tanto teve seus apêndices extraídos. Hoje não vemos essas cirurgias serem tão amplamente usadas. Talvez os tratamentos menos invasivos tenham se desenvolvido tanto que os mais traumáticos puderam ser descartados na maioria dos casos. Ou também existem modas na medicina?
Na engenharia, vez por outra, surge um tema que polariza a atenção dos profissionais. Associações são constituídas, seminários, simpósios e os modernos workshops são organizados. Papas no assunto aparecem, por mérito ou autonomeados, e viajam de norte a sul, de leste a oeste e vão o exterior – muitas vezes a moda é internacional – pontificando como autoridades da novel especialidade sem a qual a humanidade ou a economia nacional sofrem riscos iminentes. Surgem consultorias na área e rolam apoios para os eventos e para as viagens, com diárias etc.
Nos últimos três lustros a acessibilidade, tema meritório, tem tido esse tipo de atenção. Avanços têm sido observados para os portadores de necessidades especiais, idosos, gestantes, acidentados e outros. Ao longo desse tempo, categorias profissionais tentam ter o monopólio do tema, encontros variados têm se verificado em inúmeros aprazíveis locais do nosso país.  Se entrarmos nos mecanismos de procura na Internet com a chave acessibilidade, encontraremos milhares de endereços, tratando do tema dos mais diferentes pontos de vista.

Nem sempre, no entanto, as realizações físicas, as que beneficiam as comunidades, andam numa velocidade compatível com a parte soft do tema. É o caso das calçadas de Brasília. Tema também na moda, já que sobre ele, diversas reportagens têm sido veiculadas. Por uma questão de justiça devo dizer que a capital do país é, em geral, muito cuidada e que as questões de acessibilidade têm sido observadas. Restam, no entanto, muitas localidades em que as providências compatíveis ainda não foram tomadas. Uma outra questão é que certas opções urbanísticas não foram felizes e conduziram a soluções bastante antiesteticas ou indequadas ao deslocamento das pessoas. As fotos abaixo retratam essas situações.


Nas fotos aparecem calçadas desniveladas, com degraus e obstáculos nas 715 e 716 norte. Terá sido essa situação autorizada? Haverá fiscalização para exigir correções?

A CLN 316, tem prédios comerciais bem construídos. Os desníveis vencidos por escadas e rampas faz pensar que Brasília está situada num terreno de montanha. A topografia adotada tirou sua funcionalidade. Um passeio pelas lojas da quadra se constitui num forte exercício para as pernas pelo subir e descer escadas.


As comerciais CLN 205 e CLN 206 mostram um grande equívoco urbanístico. As quadras residenciais suas vizinhas são muito prejudicadas pelo que alí foi construído. Na foto um pedestre caminha pela pista de rolamento, pois a calçada é inadequada. Aqui também os desníveis dificultam o deslocamento e em muito prejudicam o comércio local.
Brasília é certamente uma cidade planejada, mas seu planejamento eventualmente não produziu os melhores resultados. E disso vamos falar aqui, mesmo sabendo que é muito mais fácil criticar do que fazer.

  



quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Vendo talento ou vendo tempo?

É permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e o endereço deste blog 
Nada é mais valioso que o tempo. Essa quarta dimensão pode ser uma dádiva ou um tormento. Sobre suas ondas é que desenrolamos nossas vidas, carregando as bagagens de desejos, anseios, realizações e decepções. É uma riqueza que não pode ser entesourada, e é aí que se torna tormento. Ou o usamos enquanto passa ou vamos ficar na saudade. Lembra, nesse aspecto, o passar de um rio, já que não podemos lavar duas vezes os pés na mesma água. A diferença é que esta pode ser aprisionada, o tempo não.         
Qual é a verdadeira natureza do tempo? Somente somos capazes de medi-lo por intervalos. Qual é o seu marco zero? Talvez o big-bang, o momento da criação do Universo.
Para poder lidar com essa grandeza física o homem o fatiou em pedaços grandes que foram sucessivamente sendo desdobrados. Séculos, anos, meses, dias, horas, minutos, segundos e outros intervalos tão pequenos quanto se queira de modo que até um piscar de olhos pode ser um tempo longo. A nanotecnologia é a coqueluche dos avanços da ciência e da técnica e por ela estudam-se objetos e tempos infinitesimais e suas relações, deixando-nos nas fronteiras de um mundo mágico, até há pouco tempo dificilmente concebível. 
Medir e se tornar dono do tempo tem sido ambição humana através da história. Relógios, folhinhas, agendas, ampulhetas são tentativas que têm sido feitas, até por papas, como Gregório XIII que criou um calendário, o que usamos até os dias atuais. Medi-lo é possível, mas enleá-lo nas cadeias dos nossos interesses, não. Firmemente ele segue adiante, sem retorno.
Se admitirmos que o tempo seja o que de mais precioso existe para o ser humano, paradoxalmente constataremos que ele vale, em termos práticos, muito pouco. Para sobreviver o vendemos por alguns trocados. O mundo certamente seria melhor se o tempo não fosse um bem posto nas prateleiras do mercado e que cada um pudesse usar o seu como melhor lhe aprouvesse, mas temos que sobreviver e atender necessidades. Então, vendemos diariamente, aos nacos, o suporte móvel da nossa existência.
Preferível seria vender o nosso trabalho, braçal ou intelectual, o nosso talento, a nossa força, a nossa arte, mas nunca o nosso tempo. O comprador deveria querer comprar os resultados do que desenvolvemos. Mas por trazer, em si, o ranço de um passado de senhor de laço e baraço, quando se compravam as pessoas para se apoderar de todas as suas qualidades e realizações e até da sua carne, busca comprar o tempo e não os talentos e os produtos, num simulacro de escravidão, escravidão moderna em cada fábrica, em cada escritório, em cada loja, em cada escola.
Antes da Revolução Industrial os tempos das atividades humanas estavam ligados aos processos naturais: o nascer e o por do sol; o colocar a semente na terra e o nascer do grão ou da flor; o despertar da primavera e o início do verão; os dias de semear e a época da colheita; o levedar da massa para se tornar pão; o fermentar do mosto para dar lugar ao vinho. A pressa do mundo, que se tornou moderno, exigiu a sincronização das atividades humanas, imposta pelas linhas de produção industriais, cada vez mais velozes. Passamos a ser parte de mecanismos perversos que esterilizavam a criatividade, o espírito, a poesia como retratado por Charles Chaplin em Tempos Modernos. O apito rouco das fábricas que chamava os operários para o trabalho serviu de exemplo às estridentes sirenes que convocavam as crianças às aulas, para que elas já se fossem acostumando ao sincronismo exigido pela economia moderna.
Os tempos mudaram e estão mudando rapidamente. Cada vez são exigidos menos seres humanos nas linhas de produção. As tarefas repetitivas e sincronizadas, aquelas que desumanizam, estão sendo passadas para as máquinas, os robôs. Aos homens e mulheres estão sendo destinadas as tarefas criativas, as que se fazem com o cérebro, com o espírito e não com os braços e os músculos.
Percebendo isso, as mais modernas e produtivas empresas do mundo atiraram ao lixo os apitos e as sirenes e procuram criar condições para o trabalho criativo para a maioria dos seus colaboradores. Seus resultados em reais ou em dólares, o valor de suas ações nas bolsas mostram que isso é possível e que esse é o caminho do futuro. A estrada, no entanto, é longa e tortuosa.
Os relógios de ponto do passado, hoje aperfeiçoados para aqueles aparelhômetros que lêem digitais ou os desenhos caprichosos da íris garantem que você ou seu tempo foram comprados por seis ou oito horas daquele dia e que você vai entregá-los. Você o vende porque tem que sobreviver, tal como alguns semelhantes nossos, que em profundas crises financeiras, vendem um dos seus rins, já que a natureza os forneceu em duplicata.
É óbvio que o comprador também está comprando enganado. Ele pretende adquirir força, talento, arte. Comprando o tempo, ele terá que fiscalizar, ao modo dos antigos feitores, o trabalhador vendedor-de-tempo para que este lhe entregue o que deseja e não apenas o intervalo entre a entrada e a saída do ambiente de trabalho, como tantas vezes acontece.
As empresas mais evoluídas do mundo passaram a comprar os resultados e não a presença física, que muitas vezes pouco ou nada significa.
O que o futuro indica, nas relações de trabalho é a venda das nossas habilidades. O ser humano deixará certamente de vender o seu tempo, até porque, isso, por não ser natural, está, desculpem o trocadilho, fora do tempo.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Importação de cérebros

O autor permite a reprodução total da matéria abaixo desde que citada a autoria.

Introdução


Não sei se você já ouviu falar de Miguel Nicolelis. Ele é um craque. Palmeirense de coração joga num time nos Estados Unidos. Com frequência vem ao Brasil, especificamente ao Rio Grande do Norte onde treina e administra, com rara proficiência, um time juvenil que promete dar muitas estrelas ao Brasil. Certamente ele é menos famoso que o Baixinho Romário, que Ronaldo Fenômeno ou até que o Felipe Melo. Ele ainda não recebeu o título de melhor jogador do mundo, mas há poucos dias recebeu o mais importante prêmio do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos para pesquisa médica (Pioneer Award), no valor de 2,5 milhões de dólares. Os que entendem do seu esporte dizem que ele poderá ser agraciado, em tempo não muito distante, com um prêmio Nobel da medicina. Se isso ocorrer, o primeiro Nobel brasileiro certamente passará a ser um protagonista para a grande mídia e talvez até uma escola de samba o escolha para tema no desfile do Sambódromo.

O time do Dr. Nicolelis é a Universidade de Duke, em Durham, Carolina do Norte. Claro que o Dr. Nicolelis não é jogador de futebol, apesar de, como todos os brasileiros, apreciar apaixonadamente esse esporte. No Rio Grande do Norte, na modesta comunidade de Macaíba, nos arredores de Natal, ele criou e orienta o Instituto Internacional de Neurociências de Natal, por meio da qual pretende exemplificar como se pode mudar o Brasil, mudando-se a sua educação. Para isso ele tem conseguido apoios oficiais e de importantes instituições internacionais. Outros projetos similares estão em desenvolvimento na Bahia e no Piauí.

O Dr. Miguel Angelo Laporta Nicolelis é um caso típico de um cérebro “drenado” do Brasil, ou se preferirem, de um modo mais doce, ele foi um cérebro brasileiro “importado” pelos Estados Unidos. Ao ler, ouvir ou escrever sobre essa personalidade não temos vontade de parar. Mas o assunto aqui é importação de cérebros. Quem quiser saber mais, entre no Google. Globo News, TV Cultura e outras têm se interessado por esse jovem cientista e já fizeram esclarecedoras matérias sobre o paulista nascido no Bixiga e que pode estar dando contribuições importantes para o avanço científico, em campos tão diferentes como a doença de Parkinson e as viagens espaciais, por meio de suas pesquisas sobre a interface cérebro-máquina.

Este artigo tem como escopo a “importação e a drenagem” de cérebros.

Engenheiros no Brasil

Tornou-se moda falar da falta de engenheiros no Brasil. Copa do Mundo, Olimpíadas e PAC puxam o tema. Vamos a alguns números: temos 1500 cursos de engenharia, que oferecem 150 mil vagas anuais; matriculados estão 300 mil e não os 750 mil esperados (5 anos de curso X 150 mil vagas). Formam-se anualmente 30 mil engenheiros, dos quais se estima apenas 25% têm formação adequada. Das vagas preenchidas no vestibular 50% se tornam ociosas até o 2º ano letivo. Matemática, Física e Química, matérias fundamentais para a formação em engenharia, são precariamente ministradas no ensino médio. A universidade pública destina apenas 25% das vagas às carreiras tecnológicas, em flagrante desequilíbrio com outras profissões.

Outros dados da mesma natureza poderiam ser alinhados. Sem muito esforço ou imaginação, chegaríamos a concluir que a engenharia é uma profissão em extinção, e que merece menos cuidados que o mico leão dourado ou a arara azul. Para um observador pouco atento, não seria difícil imaginar que o Brasil não precisa de engenheiros.

A realidade é outra. Registrados no Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia – Confea – estão 600 mil engenheiros, isso representa 6 engenheiros por mil trabalhadores. Nos Estados Unidos, no Japão e em boa parte da Europa são 25, na França 15 e assim por diante.

Posturas otimistas quanto ao crescimento econômico nos próximos anos desembocam em atitudes pessimistas quanto ao preenchimento das vagas que vão surgir no mercado. A Confederação Nacional da Indústria estima que em 2012 faltem 150 mil engenheiros para vagas que vão surgir. As áreas mais descobertas serão: óleo e gás, transporte (metrô e trem bala), construção pesada, produção industrial, sistemas de informação, pesquisa e desenvolvimento. Com a campanha já deflagrada da falta de engenheiros, espera-se formar 100 mil em 2012, para uma demanda de 85 mil, tudo isso previsto para um crescimento até lá de 5% ao ano. A ociosidade das escolas permite que essas previsões se realizem sem grandes investimentos. Preencher vagas é uma coisa, formar engenheiros com qualidade e adequação às necessidades do mercado e das estratégias do estado brasileiro é outra coisa.

É aí que está o gargalo. Conseguirá o sistema educacional formar profissionais, com a qualidade demandada pelo mercado, no prazo esperado? Será possível remover os fatores que condicionam os cursos de engenharia, em média, a uma qualidade insuficiente? A tarefa é hercúlea, se não impossível.

Há alternativas: uma sempre citada é a reciclagem dos profissionais que procuraram outras colocações por não terem encontrado trabalho (e salário compatível) ao se graduarem, principalmente na década de 90, resultado da estagnação da economia. Quantos dos estimados 600 mil desviados da profissão teriam interesse em retornar à engenharia? Não muitos, certamente.

No que se refere à qualidade e à adequação às necessidades específicas, empresas de bom porte estão desenvolvendo atividades de treinamento em serviço, criando as chamadas universidades corporativas. Outra possibilidade é a importação de mão de obra qualificada, aproveitando a crise que assola o mundo desenvolvido.

Importação e repatriação de engenheiros seniores

Não se crê que possa haver uma reversão na qualidade ou na adequação à demanda dos engenheiros que são oferecidos ao mercado pelas nossas escolas na quantidade que um cenário otimista para o nosso desenvolvimento faz prever. Como até 2012 ou nos próximos 5 ou 10 anos mudar o perfil dos egressos de modo a atender às demandas dos setores produtivos e governamentais, com qualidade? Esse nó é difícil de desatar. Sabemos todos, que a boa formação começa no ensino fundamental e que a universidade é apenas o coroamento do processo. Fora disso não há solução, só remendos.

Se efetivamente se verificar a demanda por engenheiros de qualidade para o nosso desenvolvimento, não devemos ter pejo de irmos contratá-los no exterior, aproveitando inclusive a crise que se abate sobre os EUA e Europa e que não parece que se esgotará num período curto. Haverá, previsivelmente, desemprego de engenheiros seniores no parque produtivo dessas regiões, assim como salários retraídos. Sabemos que as entidades de representação dos engenheiros se colocarão contra com grande vigor, da mesma intensidade com que não se posicionaram contra a proliferação de cursos de engenharia de qualidade abaixo de sofrível. A importação de engenheiros seniores para o nosso parque produtivo é certamente uma solução provisória até que sejamos capazes de fazer o nosso sistema de formação de profissionais da área tecnológica funcionar adequadamente. É, sem dúvida, um remendo, mas quando a calça rasga e o traseiro fica aparente, o remendo pode ser a solução.

Outra medida que podemos tomar é o repatriamento dos nossos engenheiros que foram drenados para o exterior. Os países desenvolvidos tiveram um formidável crescimento nas décadas de 80 a 2000. Nessa época importaram jovens talentosos, engenheiros promissores que estavam em programas de pós-graduação em suas universidades. A quantidade de engenheiros que formavam era inferior às suas demandas, a ponto de o então senador Obama mencionar em seu livro A audácia da esperança que preferia que seu país formasse mais engenheiros e menos advogados. Apenas de passagem: na década de 90 os EUA perceberem a qualidade insuficiente de seus engenheiros, atribuíram esse fato ao mau ensino da matemática nos níveis médios e procuraram solucionar o problema importando professores de matemática indianos. Mão de obra segue as leis do mercado (infelizmente), assim estamos jogando com as regras do jogo quando propomos ir buscar fora o que nos falta internamente.

Resgatando os nossos cérebros drenados

Acredita-se que a distribuição dos talentos humanos se dá uniformemente por toda a humanidade. Nada leva a crer que essas qualidades dependam da latitude, da longitude, da cor da pele ou da língua falada. Os gênios existem. Todos conhecem de memória algumas dezenas deles nas ciências, nas artes, nas profissões médicas, na economia, nos esportes etc. Esses seres humanos fazem grande diferença no desenvolvimento dos seus campos de atuação, mas só conseguem se expressar adequadamente, com todo seu potencial se lhes forem dadas as condições adequadas de trabalho, caso contrário se estiolam como um antúrio sem umidade e sem a proteção de uma sombra refrescante.

A plena realização de suas potencialidades os faz caminharem pelo mundo em busca do oásis que lhes permita fazer brotar suas obras. Eles emigram de suas sociedades, penalizados, mas tendo que seguir o impulso das suas naturezas. É a busca do seu nicho. Assim é a vida.

Podem conferir. O Dr. Nicolelis não emigrou para os EUA por causa de um salário maior, de um pouco mais de projeção ou para fazer bonito para os vizinhos do Bixiga. Ele foi porque lá ele encontrou condições de realizar o seu potencial. Atendeu a um chamamento da sua natureza mais profunda. Muitos outros Nicolelis brasileiros estão espalhados pelo mundo, nas ciências, nas engenharias, na música, na medicina. A maioria saudosa do Brasil, mas certos que a nossa sociedade ainda não compreendeu a importância de um gênio na solução dos seus problemas, na consolidação da sua cultura, na realização do seu destino.

O Brasil ainda não percebeu que deixar que seus mais talentosos filhos sejam “drenados” é uma atitude de lesa-pátria, que os prejuízos decorrentes se propagam por tempos muito longos, talvez para sempre. Os países desenvolvidos, e são desenvolvidos por isso mesmo, além de criarem condições para o florescimento dos seus “antúrios”, buscam as mudas promissoras dos “antúrios” exóticos que nasceram dentro da distribuição equânime da natureza em outras plagas, como, por exemplo, no Brasil. E os transplantam para canteiros adubados de onde saem os frutos das descobertas, de tecnologias novas e de produtos que o mercado absorve com avidez. Muitos perguntam por que os EUA são tão desenvolvidos e nós ainda lutamos com questões básicas, se nossas histórias, até certo ponto, guardam bom paralelismo? Uma boa parte da resposta está neste parágrafo.

Ciência, tecnologia e inovação.

Neste ponto cabe diferenciar ciência de tecnologia. O conhecimento científico é, regra geral, de acesso universal, livre, divulgado nas revistas científicas. As teorias científicas exigem no processo de seu estabelecimento as contraprovas que as validam. Avanços científicos têm valor restrito no mercado. Sua importância econômica está em ser a base para os desenvolvimentos tecnológicos.

A tecnologia, ou melhor, a inovação tecnológica, baseia-se nos desenvolvimentos científicos, procurando criar produtos ou processos que tenham valor de mercado, isto é, que encontrem demanda no mercado, ou que tenham valor estratégico para o país. A tecnologia é assim um fator de produção ao lado do capital, do trabalho, e das matérias-primas. Num certo sentido a tecnologia comporta-se como uma mercadoria, tem preço, está sujeita a transações legais e ilegais. O desenvolvimento tecnológico tem custos altos, muito maiores que os custos do desenvolvimento científico. A demanda por tecnologia pode ser vista por dois aspectos: demanda microeconômica, é a demanda das empresas por novas e melhores tecnologias para se manterem competitivas e a demanda macroeconômica, que é a demanda dos países para manterem e ampliarem suas taxas de crescimento e a sua segurança contra potenciais inimigos.

A soberania de uma nação passa necessariamente pelo enfoque tecnológico de sua política industrial. Os menos avisados tentam suprir o “gap” tecnológico pela aquisição de tecnologia no mercado internacional, sob a enganosa denominação de “transferência de tecnologia”. É preciso observar que o único recipiente de tecnologia é o ser humano. Para transferi-la é necessário que o receptor tenha condições para isso. Quando se fala em transferência de tecnologia, habitualmente, trata-se apenas de receber catálogos com instruções de operação e manutenção e de questões de montagem e desmontagem de equipamentos.

As indústrias nacionais são, em boa parte, tecnologicamente dependentes, isto é, sua produção está baseada em tecnologias importadas. Quando há desenvolvimento tecnológico autônomo é comum a empresa ser adquirida por corporações estrangeiras, até por valores acima do razoável, para que se proceda à aniquilação da tecnologia nativa e os novos proprietários passam a usar a tecnologia importada de suas matrizes. Essa é uma estratégia de dominação das mais usadas. A criação de novas tecnologias cresce proporcionalmente a tecnologia já desenvolvida, assim pode-se concluir que o desenvolvimento tecnológico cresce exponencialmente. Falam os especialistas na Explosão Tecnológica, no ápice desse processo e que caracteriza as sociedades chamadas de sociedades do conhecimento.

No Brasil atual há certa disponibilidade de recursos para o desenvolvimento científico, mas a visão oficial para o desenvolvimento tecnológico segue outra lógica: espera-se que a indústria desenvolva a tecnologia de que necessita e, para isso, até há financiadores oficiais. Ocorre na realidade que é mais econômico, principalmente no curto prazo, a aquisição de processos tecnológicos no estrangeiro, mesmo que já não correspondam ao estado da arte, mas que são vendidos como produto de descarte, pois afinal já estão pagos na origem. Para a empresa vendedora isso representa uma receita marginal. Certamente esse procedimento tem inconvenientes para o comprador. Comentemos os dois principais. O primeiro deles é a não geração no país de competência em investigação tecnológica; o outro é a incapacidade da indústria nacional de competir com produtos similares estrangeiros, que são economicamente ou utilitariamente mais vantajosos. É claro que temos outras vantagens comparativas, mas poderíamos ficar muito melhores no filme. A saída é o estímulo vigoroso à inovação tecnológica nas universidades e centros de pesquisa. O setor produtivo seria beneficiado como um todo. Algo como o apoio que a Embrapa tem dado ao setor agropecuário nestes 30 anos e que aumentou sobremodo a produção campesina no país.

Transferência de tecnologia, verdade ou mentira?

Sempre que adquirimos bens de elevado conteúdo de inovação tecnológica, a imprensa divulga a transação, seu preço e, invariavelmente, informa que a compra se dará tendo uma cláusula de transferência da tecnologia embutida no bem importado. O que deveríamos entender a partir dessa informação é que daí por diante, seríamos capazes de produzir o bem no país por termos internalizado o processo de sua fabricação. Raramente isso acontece. O que se passa de conhecimento do produto adquirido é a chamada tecnologia explícita que se constitui de instruções de utilização, de plantas e desenhos, mas o “pulo do gato” nem pensar. A verdadeira transferência só se dá quando a partir dela o comprador tem condições de inovar.

A tecnologia tem no homem seu único recipiente. Para que haja transferência tem que se ter naquela área uma equipe capacitada para absorver o que se pretende internalizar.

Se transferência de tecnologia existe mesmo, se é verdade ou se é mentira, depende dos acordos e da nossa capacitação. A realidade é que raramente, ou nunca, tecnologia de ponta é vendida. Quem a desenvolveu procura comercializar os produtos gerados e vender uma versão obsoleta. É essa situação que nos faz permanecer na dependência tecnológica dos países desenvolvidos.

Para desenvolver tecnologia

A competência tecnológica deve ser um valor social, assim como o futebol o é. Do mesmo modo que no futebol, os nossos jovens devem começar cedo a aprenderem matemática, física, química e suas aplicações simples, e se orgulharem disso.

Melhor que importar produtos de alta densidade tecnológica é importar cérebros e recebê-los em estruturas apropriadas. Isso é possível, é óbvio que tem custos, mas que se pagam rapidamente. Note-se que o profissional sênior, de alto gabarito pode ser tentado a vir prestar serviços no Brasil, por meio de bons salários, de boas condições de trabalho e de possibilidades de realização profissional. Profissionais aposentados nos Estados Unidos e na Europa podem ser cooptados, no bom sentido, é claro.

Temos alguns exemplos da efetividade desse procedimento. O primeiro deles na época da criação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA – em São José dos Campos, SP, na década de 40. Os primeiros professores daquela escola foram recrutados no exterior e deram um impulso inicial que subsiste até hoje. A competência brasileira na fabricação de aeronaves tem tudo a ver com essa estratégia de capacitar uma escola. Há alguns anos, o professor Moura Castro publicou um interessantíssimo artigo sobre os primeiros tempos do ITA. Vale à pena lê-lo.

Outro exemplo de êxito na política de importação de cérebros se deu nos anos 50, quando a Petrobrás (ainda com acento agudo) dava seus primeiros passos, sob a pressão do slogan “O petróleo é nosso”. Apesar da grande vontade política e dos esforços do genial Monteiro Lobato, nossa competência na prospecção e exploração de petróleo era nula. Resolveu-se, então, contratar o geólogo americano aposentado, Walter Link. Experiente e conhecedor da geologia do petróleo, ele reorientou as áreas a serem pesquisadas, mandou se especializarem promissores geólogos e engenheiros brasileiros no exterior; trouxe uma equipe de técnicos estrangeiros que colaborou nos heróicos primeiros tempos da nossa estatal. Nos trilhos, logo a empresa começou a dar bons resultados. Crises de xenofobia difamavam o doutor Walter Link, como sendo uma pessoa submetida a interesses alienígenas. Fez previsões de que não havia grande incidência de petróleo no território nacional, mas que havia evidências geológicas de reservas na plataforma continental. O tempo, senhor da razão, mostrou que o Dr. Walter Link estava certo.

Engenharia reversa, espionagem industrial, colocação de técnicos nacionais em indústrias estrangeiras com data certa de retorno e outros artifícios legais ou não são usados para aumentar a competência tecnológica de um país. Afinal tecnologia é riqueza e poder.

Conclusões

A pretensão de todos os países é levar a sua sociedade ao grau de sociedade do conhecimento, entendendo-se por essa expressão o saber e o saber fazer disseminado por toda a sociedade pelos potentes meios digitais atualmente disponíveis. Nesse sentido as profissões que contribuem para o desenvolvimento tecnológico – inovar o saber fazer - têm importância estratégica fundamental. É o caso das engenharias.

Os países desenvolvidos há muito vêem implementando políticas de captação de valores que se destacam em todas as áreas do conhecimento humano. Essa política tem feito a diferença. As poucas experiências feitas no Brasil nesse sentido foram marcadas pelo êxito, ainda assim não desenvolvemos sistematicamente procedimentos de atração, ou pelo menos de repatriação dos cérebros brasileiros que foram drenados para o exterior.

Desde a história mais antiga, tem sido possível observar que o conhecimento é o campo onde se disputam a competitividade entre as nações nas guerras, na produção, na economia, no prestígio. Atenas, mais cultivadora dos valores intelectuais manteve sua hegemonia no mundo helênico; os que dominaram primeiro a arte da navegação dividiram o mundo entre si; após o término da Segunda Grande Guerra os cientistas e engenheiros alemães foram encaminhados para as instalações soviéticas e americanas para continuarem a desenvolver seus programas e aí se iniciaram os programas espaciais dos dois países.

A existência de uma sociedade humana é resultado do conhecimento desenvolvido e acumulado por milênios. Nesse sentido todas as sociedades são do conhecimento, pois nele têm origem. Sociedade é Conhecimento.

O saber é o combustível que mantém acesa a chama da criatividade que nos impulsiona na busca do novo, do saber fazer.

Referências bibliográficas

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