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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Vendo talento ou vendo tempo?

É permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e o endereço deste blog 
Nada é mais valioso que o tempo. Essa quarta dimensão pode ser uma dádiva ou um tormento. Sobre suas ondas é que desenrolamos nossas vidas, carregando as bagagens de desejos, anseios, realizações e decepções. É uma riqueza que não pode ser entesourada, e é aí que se torna tormento. Ou o usamos enquanto passa ou vamos ficar na saudade. Lembra, nesse aspecto, o passar de um rio, já que não podemos lavar duas vezes os pés na mesma água. A diferença é que esta pode ser aprisionada, o tempo não.         
Qual é a verdadeira natureza do tempo? Somente somos capazes de medi-lo por intervalos. Qual é o seu marco zero? Talvez o big-bang, o momento da criação do Universo.
Para poder lidar com essa grandeza física o homem o fatiou em pedaços grandes que foram sucessivamente sendo desdobrados. Séculos, anos, meses, dias, horas, minutos, segundos e outros intervalos tão pequenos quanto se queira de modo que até um piscar de olhos pode ser um tempo longo. A nanotecnologia é a coqueluche dos avanços da ciência e da técnica e por ela estudam-se objetos e tempos infinitesimais e suas relações, deixando-nos nas fronteiras de um mundo mágico, até há pouco tempo dificilmente concebível. 
Medir e se tornar dono do tempo tem sido ambição humana através da história. Relógios, folhinhas, agendas, ampulhetas são tentativas que têm sido feitas, até por papas, como Gregório XIII que criou um calendário, o que usamos até os dias atuais. Medi-lo é possível, mas enleá-lo nas cadeias dos nossos interesses, não. Firmemente ele segue adiante, sem retorno.
Se admitirmos que o tempo seja o que de mais precioso existe para o ser humano, paradoxalmente constataremos que ele vale, em termos práticos, muito pouco. Para sobreviver o vendemos por alguns trocados. O mundo certamente seria melhor se o tempo não fosse um bem posto nas prateleiras do mercado e que cada um pudesse usar o seu como melhor lhe aprouvesse, mas temos que sobreviver e atender necessidades. Então, vendemos diariamente, aos nacos, o suporte móvel da nossa existência.
Preferível seria vender o nosso trabalho, braçal ou intelectual, o nosso talento, a nossa força, a nossa arte, mas nunca o nosso tempo. O comprador deveria querer comprar os resultados do que desenvolvemos. Mas por trazer, em si, o ranço de um passado de senhor de laço e baraço, quando se compravam as pessoas para se apoderar de todas as suas qualidades e realizações e até da sua carne, busca comprar o tempo e não os talentos e os produtos, num simulacro de escravidão, escravidão moderna em cada fábrica, em cada escritório, em cada loja, em cada escola.
Antes da Revolução Industrial os tempos das atividades humanas estavam ligados aos processos naturais: o nascer e o por do sol; o colocar a semente na terra e o nascer do grão ou da flor; o despertar da primavera e o início do verão; os dias de semear e a época da colheita; o levedar da massa para se tornar pão; o fermentar do mosto para dar lugar ao vinho. A pressa do mundo, que se tornou moderno, exigiu a sincronização das atividades humanas, imposta pelas linhas de produção industriais, cada vez mais velozes. Passamos a ser parte de mecanismos perversos que esterilizavam a criatividade, o espírito, a poesia como retratado por Charles Chaplin em Tempos Modernos. O apito rouco das fábricas que chamava os operários para o trabalho serviu de exemplo às estridentes sirenes que convocavam as crianças às aulas, para que elas já se fossem acostumando ao sincronismo exigido pela economia moderna.
Os tempos mudaram e estão mudando rapidamente. Cada vez são exigidos menos seres humanos nas linhas de produção. As tarefas repetitivas e sincronizadas, aquelas que desumanizam, estão sendo passadas para as máquinas, os robôs. Aos homens e mulheres estão sendo destinadas as tarefas criativas, as que se fazem com o cérebro, com o espírito e não com os braços e os músculos.
Percebendo isso, as mais modernas e produtivas empresas do mundo atiraram ao lixo os apitos e as sirenes e procuram criar condições para o trabalho criativo para a maioria dos seus colaboradores. Seus resultados em reais ou em dólares, o valor de suas ações nas bolsas mostram que isso é possível e que esse é o caminho do futuro. A estrada, no entanto, é longa e tortuosa.
Os relógios de ponto do passado, hoje aperfeiçoados para aqueles aparelhômetros que lêem digitais ou os desenhos caprichosos da íris garantem que você ou seu tempo foram comprados por seis ou oito horas daquele dia e que você vai entregá-los. Você o vende porque tem que sobreviver, tal como alguns semelhantes nossos, que em profundas crises financeiras, vendem um dos seus rins, já que a natureza os forneceu em duplicata.
É óbvio que o comprador também está comprando enganado. Ele pretende adquirir força, talento, arte. Comprando o tempo, ele terá que fiscalizar, ao modo dos antigos feitores, o trabalhador vendedor-de-tempo para que este lhe entregue o que deseja e não apenas o intervalo entre a entrada e a saída do ambiente de trabalho, como tantas vezes acontece.
As empresas mais evoluídas do mundo passaram a comprar os resultados e não a presença física, que muitas vezes pouco ou nada significa.
O que o futuro indica, nas relações de trabalho é a venda das nossas habilidades. O ser humano deixará certamente de vender o seu tempo, até porque, isso, por não ser natural, está, desculpem o trocadilho, fora do tempo.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Importação de cérebros

O autor permite a reprodução total da matéria abaixo desde que citada a autoria.

Introdução


Não sei se você já ouviu falar de Miguel Nicolelis. Ele é um craque. Palmeirense de coração joga num time nos Estados Unidos. Com frequência vem ao Brasil, especificamente ao Rio Grande do Norte onde treina e administra, com rara proficiência, um time juvenil que promete dar muitas estrelas ao Brasil. Certamente ele é menos famoso que o Baixinho Romário, que Ronaldo Fenômeno ou até que o Felipe Melo. Ele ainda não recebeu o título de melhor jogador do mundo, mas há poucos dias recebeu o mais importante prêmio do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos para pesquisa médica (Pioneer Award), no valor de 2,5 milhões de dólares. Os que entendem do seu esporte dizem que ele poderá ser agraciado, em tempo não muito distante, com um prêmio Nobel da medicina. Se isso ocorrer, o primeiro Nobel brasileiro certamente passará a ser um protagonista para a grande mídia e talvez até uma escola de samba o escolha para tema no desfile do Sambódromo.

O time do Dr. Nicolelis é a Universidade de Duke, em Durham, Carolina do Norte. Claro que o Dr. Nicolelis não é jogador de futebol, apesar de, como todos os brasileiros, apreciar apaixonadamente esse esporte. No Rio Grande do Norte, na modesta comunidade de Macaíba, nos arredores de Natal, ele criou e orienta o Instituto Internacional de Neurociências de Natal, por meio da qual pretende exemplificar como se pode mudar o Brasil, mudando-se a sua educação. Para isso ele tem conseguido apoios oficiais e de importantes instituições internacionais. Outros projetos similares estão em desenvolvimento na Bahia e no Piauí.

O Dr. Miguel Angelo Laporta Nicolelis é um caso típico de um cérebro “drenado” do Brasil, ou se preferirem, de um modo mais doce, ele foi um cérebro brasileiro “importado” pelos Estados Unidos. Ao ler, ouvir ou escrever sobre essa personalidade não temos vontade de parar. Mas o assunto aqui é importação de cérebros. Quem quiser saber mais, entre no Google. Globo News, TV Cultura e outras têm se interessado por esse jovem cientista e já fizeram esclarecedoras matérias sobre o paulista nascido no Bixiga e que pode estar dando contribuições importantes para o avanço científico, em campos tão diferentes como a doença de Parkinson e as viagens espaciais, por meio de suas pesquisas sobre a interface cérebro-máquina.

Este artigo tem como escopo a “importação e a drenagem” de cérebros.

Engenheiros no Brasil

Tornou-se moda falar da falta de engenheiros no Brasil. Copa do Mundo, Olimpíadas e PAC puxam o tema. Vamos a alguns números: temos 1500 cursos de engenharia, que oferecem 150 mil vagas anuais; matriculados estão 300 mil e não os 750 mil esperados (5 anos de curso X 150 mil vagas). Formam-se anualmente 30 mil engenheiros, dos quais se estima apenas 25% têm formação adequada. Das vagas preenchidas no vestibular 50% se tornam ociosas até o 2º ano letivo. Matemática, Física e Química, matérias fundamentais para a formação em engenharia, são precariamente ministradas no ensino médio. A universidade pública destina apenas 25% das vagas às carreiras tecnológicas, em flagrante desequilíbrio com outras profissões.

Outros dados da mesma natureza poderiam ser alinhados. Sem muito esforço ou imaginação, chegaríamos a concluir que a engenharia é uma profissão em extinção, e que merece menos cuidados que o mico leão dourado ou a arara azul. Para um observador pouco atento, não seria difícil imaginar que o Brasil não precisa de engenheiros.

A realidade é outra. Registrados no Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia – Confea – estão 600 mil engenheiros, isso representa 6 engenheiros por mil trabalhadores. Nos Estados Unidos, no Japão e em boa parte da Europa são 25, na França 15 e assim por diante.

Posturas otimistas quanto ao crescimento econômico nos próximos anos desembocam em atitudes pessimistas quanto ao preenchimento das vagas que vão surgir no mercado. A Confederação Nacional da Indústria estima que em 2012 faltem 150 mil engenheiros para vagas que vão surgir. As áreas mais descobertas serão: óleo e gás, transporte (metrô e trem bala), construção pesada, produção industrial, sistemas de informação, pesquisa e desenvolvimento. Com a campanha já deflagrada da falta de engenheiros, espera-se formar 100 mil em 2012, para uma demanda de 85 mil, tudo isso previsto para um crescimento até lá de 5% ao ano. A ociosidade das escolas permite que essas previsões se realizem sem grandes investimentos. Preencher vagas é uma coisa, formar engenheiros com qualidade e adequação às necessidades do mercado e das estratégias do estado brasileiro é outra coisa.

É aí que está o gargalo. Conseguirá o sistema educacional formar profissionais, com a qualidade demandada pelo mercado, no prazo esperado? Será possível remover os fatores que condicionam os cursos de engenharia, em média, a uma qualidade insuficiente? A tarefa é hercúlea, se não impossível.

Há alternativas: uma sempre citada é a reciclagem dos profissionais que procuraram outras colocações por não terem encontrado trabalho (e salário compatível) ao se graduarem, principalmente na década de 90, resultado da estagnação da economia. Quantos dos estimados 600 mil desviados da profissão teriam interesse em retornar à engenharia? Não muitos, certamente.

No que se refere à qualidade e à adequação às necessidades específicas, empresas de bom porte estão desenvolvendo atividades de treinamento em serviço, criando as chamadas universidades corporativas. Outra possibilidade é a importação de mão de obra qualificada, aproveitando a crise que assola o mundo desenvolvido.

Importação e repatriação de engenheiros seniores

Não se crê que possa haver uma reversão na qualidade ou na adequação à demanda dos engenheiros que são oferecidos ao mercado pelas nossas escolas na quantidade que um cenário otimista para o nosso desenvolvimento faz prever. Como até 2012 ou nos próximos 5 ou 10 anos mudar o perfil dos egressos de modo a atender às demandas dos setores produtivos e governamentais, com qualidade? Esse nó é difícil de desatar. Sabemos todos, que a boa formação começa no ensino fundamental e que a universidade é apenas o coroamento do processo. Fora disso não há solução, só remendos.

Se efetivamente se verificar a demanda por engenheiros de qualidade para o nosso desenvolvimento, não devemos ter pejo de irmos contratá-los no exterior, aproveitando inclusive a crise que se abate sobre os EUA e Europa e que não parece que se esgotará num período curto. Haverá, previsivelmente, desemprego de engenheiros seniores no parque produtivo dessas regiões, assim como salários retraídos. Sabemos que as entidades de representação dos engenheiros se colocarão contra com grande vigor, da mesma intensidade com que não se posicionaram contra a proliferação de cursos de engenharia de qualidade abaixo de sofrível. A importação de engenheiros seniores para o nosso parque produtivo é certamente uma solução provisória até que sejamos capazes de fazer o nosso sistema de formação de profissionais da área tecnológica funcionar adequadamente. É, sem dúvida, um remendo, mas quando a calça rasga e o traseiro fica aparente, o remendo pode ser a solução.

Outra medida que podemos tomar é o repatriamento dos nossos engenheiros que foram drenados para o exterior. Os países desenvolvidos tiveram um formidável crescimento nas décadas de 80 a 2000. Nessa época importaram jovens talentosos, engenheiros promissores que estavam em programas de pós-graduação em suas universidades. A quantidade de engenheiros que formavam era inferior às suas demandas, a ponto de o então senador Obama mencionar em seu livro A audácia da esperança que preferia que seu país formasse mais engenheiros e menos advogados. Apenas de passagem: na década de 90 os EUA perceberem a qualidade insuficiente de seus engenheiros, atribuíram esse fato ao mau ensino da matemática nos níveis médios e procuraram solucionar o problema importando professores de matemática indianos. Mão de obra segue as leis do mercado (infelizmente), assim estamos jogando com as regras do jogo quando propomos ir buscar fora o que nos falta internamente.

Resgatando os nossos cérebros drenados

Acredita-se que a distribuição dos talentos humanos se dá uniformemente por toda a humanidade. Nada leva a crer que essas qualidades dependam da latitude, da longitude, da cor da pele ou da língua falada. Os gênios existem. Todos conhecem de memória algumas dezenas deles nas ciências, nas artes, nas profissões médicas, na economia, nos esportes etc. Esses seres humanos fazem grande diferença no desenvolvimento dos seus campos de atuação, mas só conseguem se expressar adequadamente, com todo seu potencial se lhes forem dadas as condições adequadas de trabalho, caso contrário se estiolam como um antúrio sem umidade e sem a proteção de uma sombra refrescante.

A plena realização de suas potencialidades os faz caminharem pelo mundo em busca do oásis que lhes permita fazer brotar suas obras. Eles emigram de suas sociedades, penalizados, mas tendo que seguir o impulso das suas naturezas. É a busca do seu nicho. Assim é a vida.

Podem conferir. O Dr. Nicolelis não emigrou para os EUA por causa de um salário maior, de um pouco mais de projeção ou para fazer bonito para os vizinhos do Bixiga. Ele foi porque lá ele encontrou condições de realizar o seu potencial. Atendeu a um chamamento da sua natureza mais profunda. Muitos outros Nicolelis brasileiros estão espalhados pelo mundo, nas ciências, nas engenharias, na música, na medicina. A maioria saudosa do Brasil, mas certos que a nossa sociedade ainda não compreendeu a importância de um gênio na solução dos seus problemas, na consolidação da sua cultura, na realização do seu destino.

O Brasil ainda não percebeu que deixar que seus mais talentosos filhos sejam “drenados” é uma atitude de lesa-pátria, que os prejuízos decorrentes se propagam por tempos muito longos, talvez para sempre. Os países desenvolvidos, e são desenvolvidos por isso mesmo, além de criarem condições para o florescimento dos seus “antúrios”, buscam as mudas promissoras dos “antúrios” exóticos que nasceram dentro da distribuição equânime da natureza em outras plagas, como, por exemplo, no Brasil. E os transplantam para canteiros adubados de onde saem os frutos das descobertas, de tecnologias novas e de produtos que o mercado absorve com avidez. Muitos perguntam por que os EUA são tão desenvolvidos e nós ainda lutamos com questões básicas, se nossas histórias, até certo ponto, guardam bom paralelismo? Uma boa parte da resposta está neste parágrafo.

Ciência, tecnologia e inovação.

Neste ponto cabe diferenciar ciência de tecnologia. O conhecimento científico é, regra geral, de acesso universal, livre, divulgado nas revistas científicas. As teorias científicas exigem no processo de seu estabelecimento as contraprovas que as validam. Avanços científicos têm valor restrito no mercado. Sua importância econômica está em ser a base para os desenvolvimentos tecnológicos.

A tecnologia, ou melhor, a inovação tecnológica, baseia-se nos desenvolvimentos científicos, procurando criar produtos ou processos que tenham valor de mercado, isto é, que encontrem demanda no mercado, ou que tenham valor estratégico para o país. A tecnologia é assim um fator de produção ao lado do capital, do trabalho, e das matérias-primas. Num certo sentido a tecnologia comporta-se como uma mercadoria, tem preço, está sujeita a transações legais e ilegais. O desenvolvimento tecnológico tem custos altos, muito maiores que os custos do desenvolvimento científico. A demanda por tecnologia pode ser vista por dois aspectos: demanda microeconômica, é a demanda das empresas por novas e melhores tecnologias para se manterem competitivas e a demanda macroeconômica, que é a demanda dos países para manterem e ampliarem suas taxas de crescimento e a sua segurança contra potenciais inimigos.

A soberania de uma nação passa necessariamente pelo enfoque tecnológico de sua política industrial. Os menos avisados tentam suprir o “gap” tecnológico pela aquisição de tecnologia no mercado internacional, sob a enganosa denominação de “transferência de tecnologia”. É preciso observar que o único recipiente de tecnologia é o ser humano. Para transferi-la é necessário que o receptor tenha condições para isso. Quando se fala em transferência de tecnologia, habitualmente, trata-se apenas de receber catálogos com instruções de operação e manutenção e de questões de montagem e desmontagem de equipamentos.

As indústrias nacionais são, em boa parte, tecnologicamente dependentes, isto é, sua produção está baseada em tecnologias importadas. Quando há desenvolvimento tecnológico autônomo é comum a empresa ser adquirida por corporações estrangeiras, até por valores acima do razoável, para que se proceda à aniquilação da tecnologia nativa e os novos proprietários passam a usar a tecnologia importada de suas matrizes. Essa é uma estratégia de dominação das mais usadas. A criação de novas tecnologias cresce proporcionalmente a tecnologia já desenvolvida, assim pode-se concluir que o desenvolvimento tecnológico cresce exponencialmente. Falam os especialistas na Explosão Tecnológica, no ápice desse processo e que caracteriza as sociedades chamadas de sociedades do conhecimento.

No Brasil atual há certa disponibilidade de recursos para o desenvolvimento científico, mas a visão oficial para o desenvolvimento tecnológico segue outra lógica: espera-se que a indústria desenvolva a tecnologia de que necessita e, para isso, até há financiadores oficiais. Ocorre na realidade que é mais econômico, principalmente no curto prazo, a aquisição de processos tecnológicos no estrangeiro, mesmo que já não correspondam ao estado da arte, mas que são vendidos como produto de descarte, pois afinal já estão pagos na origem. Para a empresa vendedora isso representa uma receita marginal. Certamente esse procedimento tem inconvenientes para o comprador. Comentemos os dois principais. O primeiro deles é a não geração no país de competência em investigação tecnológica; o outro é a incapacidade da indústria nacional de competir com produtos similares estrangeiros, que são economicamente ou utilitariamente mais vantajosos. É claro que temos outras vantagens comparativas, mas poderíamos ficar muito melhores no filme. A saída é o estímulo vigoroso à inovação tecnológica nas universidades e centros de pesquisa. O setor produtivo seria beneficiado como um todo. Algo como o apoio que a Embrapa tem dado ao setor agropecuário nestes 30 anos e que aumentou sobremodo a produção campesina no país.

Transferência de tecnologia, verdade ou mentira?

Sempre que adquirimos bens de elevado conteúdo de inovação tecnológica, a imprensa divulga a transação, seu preço e, invariavelmente, informa que a compra se dará tendo uma cláusula de transferência da tecnologia embutida no bem importado. O que deveríamos entender a partir dessa informação é que daí por diante, seríamos capazes de produzir o bem no país por termos internalizado o processo de sua fabricação. Raramente isso acontece. O que se passa de conhecimento do produto adquirido é a chamada tecnologia explícita que se constitui de instruções de utilização, de plantas e desenhos, mas o “pulo do gato” nem pensar. A verdadeira transferência só se dá quando a partir dela o comprador tem condições de inovar.

A tecnologia tem no homem seu único recipiente. Para que haja transferência tem que se ter naquela área uma equipe capacitada para absorver o que se pretende internalizar.

Se transferência de tecnologia existe mesmo, se é verdade ou se é mentira, depende dos acordos e da nossa capacitação. A realidade é que raramente, ou nunca, tecnologia de ponta é vendida. Quem a desenvolveu procura comercializar os produtos gerados e vender uma versão obsoleta. É essa situação que nos faz permanecer na dependência tecnológica dos países desenvolvidos.

Para desenvolver tecnologia

A competência tecnológica deve ser um valor social, assim como o futebol o é. Do mesmo modo que no futebol, os nossos jovens devem começar cedo a aprenderem matemática, física, química e suas aplicações simples, e se orgulharem disso.

Melhor que importar produtos de alta densidade tecnológica é importar cérebros e recebê-los em estruturas apropriadas. Isso é possível, é óbvio que tem custos, mas que se pagam rapidamente. Note-se que o profissional sênior, de alto gabarito pode ser tentado a vir prestar serviços no Brasil, por meio de bons salários, de boas condições de trabalho e de possibilidades de realização profissional. Profissionais aposentados nos Estados Unidos e na Europa podem ser cooptados, no bom sentido, é claro.

Temos alguns exemplos da efetividade desse procedimento. O primeiro deles na época da criação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica – ITA – em São José dos Campos, SP, na década de 40. Os primeiros professores daquela escola foram recrutados no exterior e deram um impulso inicial que subsiste até hoje. A competência brasileira na fabricação de aeronaves tem tudo a ver com essa estratégia de capacitar uma escola. Há alguns anos, o professor Moura Castro publicou um interessantíssimo artigo sobre os primeiros tempos do ITA. Vale à pena lê-lo.

Outro exemplo de êxito na política de importação de cérebros se deu nos anos 50, quando a Petrobrás (ainda com acento agudo) dava seus primeiros passos, sob a pressão do slogan “O petróleo é nosso”. Apesar da grande vontade política e dos esforços do genial Monteiro Lobato, nossa competência na prospecção e exploração de petróleo era nula. Resolveu-se, então, contratar o geólogo americano aposentado, Walter Link. Experiente e conhecedor da geologia do petróleo, ele reorientou as áreas a serem pesquisadas, mandou se especializarem promissores geólogos e engenheiros brasileiros no exterior; trouxe uma equipe de técnicos estrangeiros que colaborou nos heróicos primeiros tempos da nossa estatal. Nos trilhos, logo a empresa começou a dar bons resultados. Crises de xenofobia difamavam o doutor Walter Link, como sendo uma pessoa submetida a interesses alienígenas. Fez previsões de que não havia grande incidência de petróleo no território nacional, mas que havia evidências geológicas de reservas na plataforma continental. O tempo, senhor da razão, mostrou que o Dr. Walter Link estava certo.

Engenharia reversa, espionagem industrial, colocação de técnicos nacionais em indústrias estrangeiras com data certa de retorno e outros artifícios legais ou não são usados para aumentar a competência tecnológica de um país. Afinal tecnologia é riqueza e poder.

Conclusões

A pretensão de todos os países é levar a sua sociedade ao grau de sociedade do conhecimento, entendendo-se por essa expressão o saber e o saber fazer disseminado por toda a sociedade pelos potentes meios digitais atualmente disponíveis. Nesse sentido as profissões que contribuem para o desenvolvimento tecnológico – inovar o saber fazer - têm importância estratégica fundamental. É o caso das engenharias.

Os países desenvolvidos há muito vêem implementando políticas de captação de valores que se destacam em todas as áreas do conhecimento humano. Essa política tem feito a diferença. As poucas experiências feitas no Brasil nesse sentido foram marcadas pelo êxito, ainda assim não desenvolvemos sistematicamente procedimentos de atração, ou pelo menos de repatriação dos cérebros brasileiros que foram drenados para o exterior.

Desde a história mais antiga, tem sido possível observar que o conhecimento é o campo onde se disputam a competitividade entre as nações nas guerras, na produção, na economia, no prestígio. Atenas, mais cultivadora dos valores intelectuais manteve sua hegemonia no mundo helênico; os que dominaram primeiro a arte da navegação dividiram o mundo entre si; após o término da Segunda Grande Guerra os cientistas e engenheiros alemães foram encaminhados para as instalações soviéticas e americanas para continuarem a desenvolver seus programas e aí se iniciaram os programas espaciais dos dois países.

A existência de uma sociedade humana é resultado do conhecimento desenvolvido e acumulado por milênios. Nesse sentido todas as sociedades são do conhecimento, pois nele têm origem. Sociedade é Conhecimento.

O saber é o combustível que mantém acesa a chama da criatividade que nos impulsiona na busca do novo, do saber fazer.

Referências bibliográficas

Cardoso, José Roberto, Escolas demais, engenheiros de menos, O Estado de São Paulo, 20/07/2010, São Paulo, SP

Pastore, José, Escassez de Engenheiros, O Estado de São Paulo, 20/07/2010, São Paulo, SP.

Naiana, Oscar, Empresas já importam funcionários, 03/04/2010, O Estado de São Paulo, São Paulo, SP.

Nassif, Luiz, A atração de cérebros, Brasilianas.org

Castro, Moura, C., É Preciso colocar esses estrangeiros no lugar, www.responsabilidadeducacional.com.br

Pirró e Longo, W, Tecnologia e Transferência de tecnologia, Revista A Defesa Nacional, 678,54, 1978, RJ

Pirró e Longo, W; Moreira, de Souza, W, Contornando o Cerceamento Tecnológico; Publicado em “Defesa, Segurança Internacional e Forças Armadas”, Svartman, E.M., e org., Editora Mercado de Letras, p. 309-321, Campinas, SP (2010).