Senge-DF

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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Voz do engenheiro, um bom jornal

É permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e o endereço deste blog

Eng. Civil Danilo Sili Borges

Os informativos e boletins, impressos ou eletrônicos, das nossas entidades de classe raramente nos despertam a atenção para suas matérias. Ou nem os acessamos em nossos computadores, ou os colocamos, após uma rápida olhadela, na mesa de publicações destinadas aos visitantes eventuais dos nossos escritórios, que os folheiam enquanto aguardam atendimento. Assuntos excessivamente corporativos ou posições ideológicas e político-partidárias radicais afastam de imediato os leitores potenciais.
O jornal do Senge-DF, Voz do Engenheiro, de alguns números para cá, tem veiculado matérias de relevante interesse. O número seis (6) trouxe um estudo histórico da construção de Brasília, comemorativo dos cinquenta anos da inauguração da cidade. Além de graficamente bem apresentado, o exemplar citado contém matérias que permitem reviver o tempo heróico da construção da capital. Muitos guardamos o exemplar para consultas.
O número sete (7), que está sendo distribuído neste fim de outubro, apresenta algumas matérias dignas de serem mencionadas. A entrevista com o Reitor da Unicamp, Fernando Costa, é uma delas. Lúcido, sobre as questões da educação no Brasil, aponta caminhos para a melhoria da formação dos engenheiros. Escorrega apenas ao citar boas universidades estrangeiras como admitindo estudantes para o curso de engenharia, sem, nessa etapa, diferenciar a modalidade, só o fazendo alguns semestres depois, quando o estudante já adquiriu informações e mais maturidade para escolher de modo mais bem fundamentado. Como o Reitor é ainda jovem, está perdoado: o retardar a escolha da modalidade era a prática da quase totalidade dos cursos de engenharia no Brasil. Quem praticamente acabou com isso foi a centralização extrema das normas educacionais que não atendem às especificidades de cada profissão.
A matéria de capa, É preciso planejar, faz um histórico do planejamento nas atividades humanas, mas longe de ser sectário, mostra, através de abalizados depoimentos, a razão pela qual devemos adotar o planejamento nas nossas atividades profissionais.  Alerta para uma excessiva burocratização do planejamento, que muitas vezes se verifica nas atividades governamentais.
 Por fim, Colhendo o Futuro, é uma radiografia da Embrapa, mostra como uma criteriosa preparação de quadros competentes pode mudar as feições do país num determinado segmento tecnológico e econômico. Como gato escaldado tem medo de água fria, o presidente da empresa, Pedro Arraes, faz, ao longo da matéria, a defesa de recursos para o crescimento da empresa. A pregação se justifica se lembrarmos que a Embrapa quase foi destruída no início dos anos 90 por ações impensadas do governo de então, que felizmente durou pouco.
Parabéns ao Senge-DF , aos que cuidam da publicação Voz do Engenheiro, que faz política no melhor sentido da expressão.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Brasília tremeu

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Eng. Civil Danilo Sili Borges

Sexta-feira, 08 de outubro de 2010, 17h17, cinco dias depois do primeiro turno das eleições, Brasília tremeu. Houve quem pensasse que era devido ao foguetório que talvez estivesse sendo produzido pelas torcidas organizadas – militâncias – dos dois candidatos. A questão era mais profunda! A 14,8 km da superfície e à distância de 130 km da capital do Brasil, no município de Mara Rosa, no norte goiano, quase estado de Tocantins, se deu uma forte liberação de energia, possivelmente provocada pelo deslocamento de grandes blocos de rocha e pelas pressões que nessa situação passam a exercer entre si.

A população do município goiano levou um “bruta susto”. A energia desprendida no fenômeno viajou a uma velocidade de cerca de seis (6) km/s, em ondas sísmicas e rapidamente chegou até Brasília.

Como tremor o episódio, felizmente, foi modesto apesar da quantidade de energia liberada, que fez oscilar uma área de milhares de quilômetros quadrados com elevada profundidade. A natureza é um depósito infinito de energia e ininterruptamente nos mostra sua abundância energética, basta um olhar para o sol se não quisermos aprofundar mais essa discussão.  A humanidade, no entanto, é carente desse bem A nossa orgulhosa tecnologia não conseguiu extrair senão parcelas ínfimas de energia diretamente da matéria pela fissão nuclear, a altos custos e com grandes riscos de desastres e de contaminação.  Talvez não sejamos tão onipotentes quanto cremos.

O tremor de magnitude entre 4,6 e 5,0 na escala Richter foi sentido por parte da população. Na ocorrência de um sismo, nos prédios com fundações em terrenos menos consistentes, a construção é mais afetada e os habitantes sentem mais os deslocamentos. Quem estiver nos andares mais altos de uma edificação terá maior probabilidade de sentir os efeitos do fenômeno telúrico. Em alguns edifícios públicos e comerciais a ordem foi de evacuação e o fim de semana começou alguns minutos mais cedo, mas com um friozinho na barriga e a pergunta: poderá ocorrer outro tremor mais forte? As histórias recentes dos terremotos no Haiti e no Chile vieram às cabeças de todos.

Os grandes sismos ocorrem geralmente nas franjas das falhas tectônicas, que são as junções de placas que formam parte da litosfera terrestre, e que se movimentam umas em relação a outras provocando tensões que acabam superando os limites elásticos do material de que são constituídas e liberando fantásticas quantidades de energia. No território brasileiro não ocorre nenhuma dessas falhas entre placas, diz-se que o Brasil está situado na intraplaca Sul-Americana e longe de seus bordos, o que nos garante uma atividade sísmica modesta. Modesta, mas não inexistente. O maior tremor registrado no Brasil foi de grau 6,6 na Serra do Tombador, no estado de Mato Grosso, em 1955.

Os tremores podem ter diversas causas, algumas até provocadas pela ação humana, como a construção de barragens, explosões de bombas nucleares, retirada de água ou de gases subterrâneos, além daqueles de gênese geológica.

Até há algumas décadas, apenas as grandes obras especiais – barragens, centrais nucleares e pontes de grandes proporções recebiam no projeto estrutural verificações quanto à segurança a sismos, muitas vezes utilizando-se normas ou procedimentos estrangeiros para esse fim. Os projetos estruturais de obras correntes de edifícios e outras não eram contemplados com essa questão. Alguns fatos levaram a que os engenheiros passassem a ter preocupações com a segurança estrutural a sismos: o estudo aprofundado da ocorrência de um terremoto de grandes proporções, acima de 8 graus, numa região intraplaca nos Estados Unidos, o adensamento populacional das nossas cidades com o aumento da altura dos edifícios, a incerteza da ocorrência e das causas dos fenômenos geológicos, a pequena história dos registros sísmicos, de no máximo 500 anos, curto para esse tipo de fenômeno. E principalmente os recursos disponíveis para a análise estrutural com a intensificação do uso dos computadores e de softwares com capacidade de analisar fenômenos do campo da dinâmica estrutural.

As normas brasileiras da Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT – absorveram essas necessidades. A NBR 6118:2003 – Projeto de estrutura de concreto – Procedimento – já estabelece algumas recomendações que se consubstanciam na NBR 15421:2006 – Projeto de Estruturas Resistentes a Sismos – Procedimento.

As estruturas correntes até então eram projetadas para cargas estáticas, mas os sismos e os ventos (cargas eólicas) se dão em tempos curtos configurando carregamentos dinâmicos. Além da intensidade das cargas aplicadas, as prescrições normativas evitam que a freqüência própria da estrutura projetada esteja próxima da frequência da energia transmitida pelo sismo, que se ocorresse, poderia ensejar o fenômeno da ressonância, com danosas consequências para a estabilidade da obra.

O gráfico mostra a distribuição dos sismos no Brasil.


O território nacional está dividido em cinco regiões com características sísmicas diferentes, mas sempre moderadas.

A engenharia estrutural está atenta a essa questão e as novas construções têm um grau de segurança maior que as mais antigas, quando as peças da estrutura – pilares, vigas, lajes – eram consideradas como independentes, sem formar um todo monolítico. De qualquer modo as reservas de resistência das estruturas e a moderada atividade sísmica do país nos permitem uma relativa tranquilidade. 
Digo relativa tranquilidade, pois há muitas incertezas no comportamento dinâmico da geologia do planeta. Afinal vivemos sobre uma esfera de raio pouco maior que 6300km, pequena, muito pequena na escala do Universo, solta na cauda da nossa Via Láctea, seguindo as leis da gravitação e sujeita até mesmo a colisões com outros objetos cósmicos. Será que a segurança quanto aos fenômenos planetários é mesmo algo que nos deva tirar o sono? Ou devemos refletir sobre eles para pesarmos a nossa fragilidade e pequenez e para reduzirmos o nosso orgulho e a nossa ferocidade?

terça-feira, 12 de outubro de 2010

A Massa Crítica e a Cultura de uma Organização - um caso vivido

É permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e o endereço deste blog.

Diz o ditado que “uma andorinha só não faz verão”. Que número mínimo de andorinhas será necessário para que o sol brilhe sobranceiro nos céus, que os dias se tornem maiores e que os termômetros atinjam 40°C?
Os engenheiros há muito conhecem o conceito de carga crítica como aquela que provoca a flambagem numa peça comprimida. Flambagem é a perda da capacidade de suporte da peça e a sua consequente ruptura. O sistema que estava em equilíbrio para cargas menores que a carga crítica perde esse equilíbrio e se torna instável quando a carga atinge o valor citado e procura uma nova configuração de equilíbrio.  Essa ideia se generalizou. A instabilidade de um sistema, seja físico ou de outra natureza, é hoje bem estudada inclusive em fenômenos verificados em organizações sociais onde sua quantificação matemática quase nunca é possível como o é no caso da flambagem.
O conceito específico de massa crítica é proveniente da Física Nuclear e tem uma explicação coloquial, dada por Denis Russo e que será útil aos nossos propósitos neste texto:
“Massa crítica é uma expressão da física nuclear. Quando um átomo se quebra, o nêutron sai voando. Mas átomos são lugares muito vazios. Tão vazios que o mais provável é que esse nêutron voador escape sem bater em nada. Só que, se houver uma porção de átomos arrebentando ao mesmo tempo, aí vai voar nêutron para todo lado. Serão tantos que pelo menos alguns podem acertar outros átomos. Cada átomo atingido vai estourar também, liberando outro nêutron, que bate em outro átomo, e outro e outro. Aí, meu caro, acontece uma explosão nuclear (reação em cadeia) *. Massa crítica é a quantidade mínima (de matéria) * necessária para que essa reação em cadeia aconteça.”
* As expressões em parênteses foram acrescentadas pelo autor deste texto.
Note-se a similaridade das duas situações descritas. Enquanto a massa colocada na reação não atinge o valor crítico o sistema retorna a sua situação de equilíbrio inicial e a reação em cadeia não se estabelece. Quando a massa atinge o valor crítico, o equilíbrio inicial se rompe e o sistema procura uma nova configuração, agora de reação em cadeia.
O conceito de massa crítica foi transposto para a administração de universidades e centros de pesquisa, isso já há muito tempo. O que se observou foi que para se desenvolver, por exemplo, uma linha de pesquisa de um novo objeto, não é suficiente se importar para o centro de pesquisa “o cabeção” no assunto, é importante que haja um número considerável de conhecedores e de interessados no mesmo para que se estabeleça a dinâmica procurada. O número de pesquisadores necessários para que a reação em cadeia ocorra é o que se chama de massa crítica, neste caso. Ele não é um número matematicamente determinado, mas o conceito vale muito bem para o entendimento do sucesso ou do fracasso de uma experiência na implantação de um setor como o descrito.
Tivemos a oportunidade de usar o mesmo conceito no texto Importação de Cérebros, veiculado neste blog, quando descrevemos que ao se aumentar o número de pesquisas numa sociedade, entra-se num processo exponencial, mais que proporcional, no qual quanto mais pesquisas são feitas, mais pesquisas se seguirão até que ocorra uma espécie de explosão. Isso se pode dar no âmbito de um laboratório, de um centro de pesquisas ou num país. É um fenômeno sinérgico presente em inúmeras situações. A ocorrência de um sistema em estado crítico é, em alguns casos procurada, desejada, mas em outros deve ser evitada, por ser perniciosa, como na maioria dos casos de flambagem.
Há alguns meses, um ex-aluno, empresário, dono de uma construtora de porte médio, trabalhando prioritariamente com construções especiais por todo o país procurou-me, na condição de consultor, para ver se eu podia ajudá-lo numa questão que estava ocorrendo na sua empresa, agora liderada por seu filho mais velho, também engenheiro.
 A empresa, com quase trinta e cinco anos de funcionamento, teve seu fundador afastado para uma justa aposentadoria. O novo dirigente, no vigor da sua juventude de pouco mais de três décadas, resolveu adotar métodos mais modernos de gerência. De modo muito correto, começou por atuar na sua atividade fim e fez um curso de gerenciamento de obras. A possibilidade de ter, agregado aos projetos de engenharia, um projeto detalhado do gerenciamento das obras, integrando etapas, custos, riscos, alternativas maravilhou-o e ele ficou certo de que havia encontrado o que procurava para aumentar a produtividade e para ter a empresa realmente na mão.
Júnior, o jovem engenheiro, então, contratou para a empresa um especialista no gerenciamento de obras, por indicação de um professor do curso que frequentara e apostou nele todas as fichas. Despesas com softwares, nova rede de informática para suportar o serviço, agora todo automatizado e... uma grande confusão.
Nessa etapa, o meu amigo, retornando de sua primeira aventura pós-aposentadoria, um périplo de 90 dias pela Europa, encontrou sua amada empresa em meio a adaptações aos novos tempos. Recebeu seus engenheiros, antigos auxiliares dos heróicos tempos das primeiras obras, inseguros e até indignados. A adaptação estava sendo dolorosa. No entender desses velhos profissionais, muita conversa e poucos resultados. Um que lhe era mais íntimo, visivelmente irritado, lhe disse:
  - Todas essas coisas somente são possíveis com computadores. Que é uma máquina inventada para resolver problemas que antes dele não existiam.
Meu amigo, com sua habitual lhaneza, argumentou que as empresas que não se atualizarem terão vida curta no mundo corporativo rudemente competitivo da atualidade.
 - OK, mas nós fazíamos obras bem antes dessas novidades, aliás, a humanidade tem feito obras, grandes obras, sem toda essa parafernália. Brasília foi construída em menos de quatro anos sem nada disso. Ponte Rio - Niterói, as catedrais da Europa, Tucuruí, Itaipu, homem na Lua em 1969, Jardins da Babilônia, as Pirâmides....
O ambiente estava tenso, acho que mais para um psicólogo empresarial que para um velho engenheiro, consultor em negócios de engenharia. Logo percebi que a questão não era técnica e nem econômica. Conversei com o perito em gerenciamento de obras e o senti muito seguro do seu conhecimento e dos resultados que poderia alcançar. Mais seguro até do que seria de se esperar. Falou-me de sua pósgraduação no exterior e de como as obras eram gerenciadas nos países mais desenvolvidos. Foi taxativo ao me dizer:
- Pert-CPM, Diagrama de Gantt, Caminho Crítico tudo isso já morreu e está enterrado. Hoje existem softwares que nos fazem literalmente ter a obra na ponta dos dedos, de modo integrado.
Esclareço que não estava pregando a aplicação desses procedimentos antigos, se bem que hoje eles estão automatizados e são bastante utilizados, mas os meus quase 70 anos devem tê-lo induzido a pensar isso. Juro que até senti falta de ar como se estivesse sendo enterrado com o Pert, no mesmo ataúde. Seria esse o meu caminho crítico?
Com muito tato e com a ajuda do velho engenheiro, meu amigo, e também do Júnior conseguimos acalmar o moço. Agora já mais normal e tendo tirado os sapatos altos da competência exclusiva, pude insinuar que ele deveria preparar o pessoal da empresa para a metodologia que estava sendo implantada, ou trazendo um treinamento para a empresa, através da contratação de um dos cursos existentes no mercado, ou mandando alguns dos profissionais da empresa cursarem MBAs nessa especialidade.
A sugestão, além de retratar o que eu de fato penso, era também um teste para avaliar a posição do especialista, a qual eu já pressupunha. Primeiro ele desconversou, ignorando a proposta. Eu insisti. Visivelmente incomodado ele alegou que isso era desnecessário, uma despesa sem precisão. Ele mesmo poderia dar o treinamento.
O diagnóstico estava feito. A implantação da nova metodologia, moderna e útil, só poderia ser levada a cabo, com êxito, através de uma alteração da cultura da empresa. Em primeiro lugar pela preparação de um número de protagonistas que conhecessem o assunto – formação de massa crítica. Em segundo lugar, que o especialista abrisse mão de querer ser o único dono do assunto, que fosse menos rude no trato (certamente provocado pelo medo de perder sua posição) e trabalhasse com menos orgulho e menos egoísmo.
Almocei no dia seguinte com o meu amigo e o Júnior. Passei-lhes as minhas avaliações verbalmente, além de explicar-lhes que essas mudanças culturais exigem tempo e paciência e que não podem ser conduzidas por pessoas, por mais competentes que sejam, que queiram fazer mistério dos seus conhecimentos, além de supervalorizá-los. À tarde retornei a Brasília, redigi minhas observações e as enviei de imediato.
Por e-mail estou acompanhando a evolução da questão. O Júnior teve uma dura conversa com o especialista, que acabou concordando em adotar um procedimento mais aberto e facilitar a preparação do pessoal. Três engenheiros mais novos estão cursando um MBA. A empresa disponibilizou uma bibliografia específica e o nosso perito está acessível a perguntas e a uma integração sem críticas destrutivas e sem grosserias que tinham origem na sua insegurança. As últimas mensagens dão conta de que o processo de aculturação da empresa está indo bem. Já estão administrando duas obras novas pela metodologia, a título experimental, não há crises de vaidades feridas, nem de pretensões expostas. O espírito é de colaboração. O processo é liderado pelo Júnior, com a sua autoridade de presidente da organização.
Meu amigo e a esposa estão planejando uma visita à Ásia, para intensificarem seus conhecimentos na filosofia budista.
Quantas andorinhas são necessárias para fazer verão?
Todas as que possam contribuir para que o frio da rispidez, da vaidade, do medo e do egocentrismo seja trocado pelo calor trazido pelos ventos mornos da boa educação e do espírito de colaboração. É assim na empresa, é assim na vida.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Recados

Quando você estiver lidando com uma pessoa agressiva e rude, procure entendê-la, ela certamente está muito insegura, Seu coração está descompassado pelo medo.

domingo, 3 de outubro de 2010

Calçadas de Brasília

É permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e o endereço deste blog 
Existem modas para tudo. As saias das moças sobem e descem acima e abaixo dos joelhos; o salmão passa a ser mais conhecido como cor do que como um delicioso peixe; as tatuagens e piercings enfeitam as costas, os braços, as pernas e dizem que até outras partes dos corpos dos jovens e das jovens. Também nas áreas da engenharia elas surgem e durante algum tempo se impõem. Processos construtivos, métodos de cálculo, equipamentos, materiais têm suas épocas. Apesar de modas, quando ocorrem situações meritórias um bom resíduo fica no fundo do cadinho, enquanto a impureza se esvai como fumaça.
Penso que em todas as profissões existam modas. Muitas vezes elas têm motivos práticos, pecuniários ou não. Vejamos na medicina: um alto percentual dos nascidos nos anos 40 ou 50 não têm amígdalas, outro tanto teve seus apêndices extraídos. Hoje não vemos essas cirurgias serem tão amplamente usadas. Talvez os tratamentos menos invasivos tenham se desenvolvido tanto que os mais traumáticos puderam ser descartados na maioria dos casos. Ou também existem modas na medicina?
Na engenharia, vez por outra, surge um tema que polariza a atenção dos profissionais. Associações são constituídas, seminários, simpósios e os modernos workshops são organizados. Papas no assunto aparecem, por mérito ou autonomeados, e viajam de norte a sul, de leste a oeste e vão o exterior – muitas vezes a moda é internacional – pontificando como autoridades da novel especialidade sem a qual a humanidade ou a economia nacional sofrem riscos iminentes. Surgem consultorias na área e rolam apoios para os eventos e para as viagens, com diárias etc.
Nos últimos três lustros a acessibilidade, tema meritório, tem tido esse tipo de atenção. Avanços têm sido observados para os portadores de necessidades especiais, idosos, gestantes, acidentados e outros. Ao longo desse tempo, categorias profissionais tentam ter o monopólio do tema, encontros variados têm se verificado em inúmeros aprazíveis locais do nosso país.  Se entrarmos nos mecanismos de procura na Internet com a chave acessibilidade, encontraremos milhares de endereços, tratando do tema dos mais diferentes pontos de vista.

Nem sempre, no entanto, as realizações físicas, as que beneficiam as comunidades, andam numa velocidade compatível com a parte soft do tema. É o caso das calçadas de Brasília. Tema também na moda, já que sobre ele, diversas reportagens têm sido veiculadas. Por uma questão de justiça devo dizer que a capital do país é, em geral, muito cuidada e que as questões de acessibilidade têm sido observadas. Restam, no entanto, muitas localidades em que as providências compatíveis ainda não foram tomadas. Uma outra questão é que certas opções urbanísticas não foram felizes e conduziram a soluções bastante antiesteticas ou indequadas ao deslocamento das pessoas. As fotos abaixo retratam essas situações.


Nas fotos aparecem calçadas desniveladas, com degraus e obstáculos nas 715 e 716 norte. Terá sido essa situação autorizada? Haverá fiscalização para exigir correções?

A CLN 316, tem prédios comerciais bem construídos. Os desníveis vencidos por escadas e rampas faz pensar que Brasília está situada num terreno de montanha. A topografia adotada tirou sua funcionalidade. Um passeio pelas lojas da quadra se constitui num forte exercício para as pernas pelo subir e descer escadas.


As comerciais CLN 205 e CLN 206 mostram um grande equívoco urbanístico. As quadras residenciais suas vizinhas são muito prejudicadas pelo que alí foi construído. Na foto um pedestre caminha pela pista de rolamento, pois a calçada é inadequada. Aqui também os desníveis dificultam o deslocamento e em muito prejudicam o comércio local.
Brasília é certamente uma cidade planejada, mas seu planejamento eventualmente não produziu os melhores resultados. E disso vamos falar aqui, mesmo sabendo que é muito mais fácil criticar do que fazer.