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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

E a educação no Brasil, como ficará na fita?

O artigo, abaixo transcrito, do conceituado jornalista Thomas Friedman no New York Times trata de um assunto recorrente, o desenvolvimento econômico de um país, sua capacidade de concorrer num mercado global e o nível da sua educação.
Há certamente concordância com todos os seus argumentos e com os dos depoimentos prestados no artigo, escrito para a realidade dos Estados Unidos. O autor não vacila ao afirmar que a capacidade competitiva americana é função da qualidade da educação existente no país. Aponta como principal fator para a melhoria da educação naquele país a valorização dos professores que deveriam ser recrutados no terço mais bem qualificado das turmas de formandos.
Mas eu não estou aqui para re-escrever o artigo, até porque me faltam o talento e o conhecimento do seu autor. Peço é que o leiam e reflitam, extrapolando sua argumentação para a realidade brasileira, sobre como estará o Brasil e sua economia daqui a 30 ou 50 anos, se não tomarmos firmes e urgentíssimas medidas de apoio ao desenvolvimento da educação. Vamos continuar tecnologicamente dependentes e obedientes exportadores de commodities ou vamos nos tornar a civilização dos poderosos “homens e mulheres de bronze?” (Com referência a bela cor da pele da nossa população, resultado da miscigenação e do sol que nos abençoa todos os dias do ano).
Muito tem sido feito para a universalização da educação no Brasil nas últimas décadas, é preciso reconhecer, mas é muito pouco frente ao necessário. Aos formuladores da política estratégica do país e aos seus executores, pede-se que adotem horizontes maiores que quatro anos (um mandato), ou oito anos (o mandato atual e a próxima re-eleição).
Alguns dirão: “Nossa situação é diferente da americana.” E eu responderei: “É verdade, e é muito pior”.
LEIA O ARTIGO.Ensino nos EUA vem sendo superado há anos
 Thomas L. Friedman

 Quando cheguei a Washington em 1988, a Guerra Fria estava acabando e o assunto do momento era segurança nacional e o Departamento de Estado.  Se eu fosse um foca hoje, eu ainda assim gostaria de cobrir o epicentro da segurança nacional – mas ele seria o Departamento da Educação. O presidente Barack Obama acertou quando disse que aquele que "nos superar hoje em educação irá nos superar na concorrência amanhã". A má notícia é que há anos estamos sendo superados na educação. A boa notícia é que os municípios, estados e o governo federal estão contra-atacando. Mas não tenha ilusões. Nós estamos em um buraco.
 Aqui estão alguns poucos dados que o Secretário da Educação, Arne Duncan, ofereceu em um discurso em 4 de novembro: "Um quarto dos  estudantes colegiais americanos abandona a escola ou não se forma no  prazo normal. Quase 1 milhão de estudantes trocam as escolas pelas  ruas a cada ano.  (...) Uma das coletivas de imprensa mais incomuns e  sérias de que  participei no ano passado foi a divulgação de um  relatório por um grupo  de altos generais e almirantes da reserva. Esta  foi a conclusão atordoante do relatório deles: 75% dos jovens  americanos, entre 17 e 24  anos, são incapazes de se alistarem nas  forças armadas atualmente porque  não se formaram no colegial, possuem  ficha criminal ou são fisicamente inaptos". Os jovens americanos atualmente estão empatados no 9º lugar em ingresso no ensino superior.
 "Outros povos nos passaram e estamos pagando economicamente um preço imenso por causa disso", acrescentou Duncan em uma entrevista.  "Mudança incremental não nos levará até onde precisamos ir. Nós temos que ser muito mais ambiciosos. Temos que ser mais contestadores. Não é possível continuar fazendo as mesmas coisas e esperar resultados diferentes." Duncan, com apoio bipartidário, deu início a várias iniciativas para energizar uma reforma – particularmente sua competição Corrida ao Topo, dólares federais destinados aos Estados com as reformas mais  inovadoras  para se chegar aos padrões mais altos. Mas talvez seu maior esforço seja para elevar a profissão do professor. Por quê?
 Tony Wagner, um especialista em educação de Harvard e autor de "The Global Achievement Gap", explicou dessa forma. Há três habilidades básicas que os estudantes precisam caso queiram prosperar em uma economia de conhecimento: a habilidade de realizar pensamento crítico e de solucionar problemas; a habilidade de se comunicar de forma  eficaz; e a  habilidade de colaborar.
 Se você olhar para os países que lideram os testes que medem essas habilidades (como a Finlândia e a Dinamarca), uma coisa se destaca: eles insistem que seus professores venham do um terço superior de suas turmas de formandos universitários. Como Wagner colocou: "Eles transformaram o ensino de um trabalho de linha de montagem para um de  trabalhador de  conhecimento. Eles investiram em peso na forma como recrutam, treinam e apóiam os professores, para atrair e reter os  melhores".
Duncan contesta a noção de que os sindicatos dos professores sempre resistirão a essas mudanças. Ele aponta para os novos contratos de "avanço" em Washington, D.C., New Haven e Hillsborough County,  Flórida, onde os professores abraçaram padrões mais altos de  desempenho em troca de um maior salário para aqueles que exibirem  melhores resultados.
 "Nós temos que recompensar a excelência", ele disse. "Nós tínhamos medo de falar em excelência na educação. Nós tratávamos todos como componentes intercambiáveis. Basta apenas jogar uma criança na sala de aula e um professor na sala de aula." Isso ignorava a diferença entre professores que estão mudando as vidas dos estudantes e aqueles que não. "Se você realiza um ótimo trabalho com os estudantes", ele disse, "nós nunca poderemos lhe pagar o suficiente".
Esse é o motivo para Duncan estar iniciando uma campanha nacional para recrutar novos talentos. "Nós temos que criar no sistema um ambiente e incentivos para que as pessoas queiram ingressar na profissão. Três países que nos superaram – Cingapura, Coreia do Sul e Finlândia – não  deixam lecionar aqueles que não tenham vindo do terço superior de seus  formandos. E na Coreia do Sul eles se referem aos seus professores  como 'construtores da nação'."
A visão de Duncan é que desafiar os professores a atingirem níveis mais altos – usando dados de desempenho do estudante no cálculo do salário, aumentando a concorrência por meio da inovação e diplomas – não é algo antiprofessor. É levar a profissão muito mais a sério e elevá-la para onde deve estar. Há 3,2 milhões de professores ativos atualmente nos Estados Unidos. Na próxima década, metade deles se aposentará. Como recrutaremos, treinaremos, apoiaremos, avaliaremos e compensaremos seus sucessores "moldará o ensino público pelos próximos 30 anos", disse Duncan. Nós temos que fazer isso direito.
 Wagner acha que devemos criar uma academia de West Point para os professores: "Nós precisamos de uma nova Academia Nacional de Educação, seguindo o modelo de nossas academias militares, para elevar o status da profissão e apoiar a pesquisa e desenvolvimento essenciais  para a  reinvenção do ensino, aprendizado e avaliação no século 21".
 São todas boas ideias, mas se quisermos melhores professores, também precisaremos de melhores pais – pais que desliguem a TV e os videogames cuidem para que a lição de casa seja feita, encorajem a leitura e elevem o aprendizado como a habilidade mais importante da  vida. Quanto mais exigirmos dos professores, mais devemos exigir de pais e alunos. Esse é o Contrato para a América que realmente  assegurará nossa segurança nacional.
 Tradução: George El Khouri Andolfato
 Thomas L. Friedman é colunista de assuntos internacionais do New York Times desde 1995. Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

sábado, 13 de novembro de 2010

PELÉ E A MATEMÁTICA

É permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e o endereço deste blog

Eng. Civil Danilo Sili Borges

“Só se pode tirar qualidade da quantidade”
Nos idos anos 50, dei uma contribuição à revelação do nosso Rei Pelé no futebol. É verdade que não foi uma grande contribuição, na realidade se tratou de uma participação infinitesimal no melhor sentido matemático do termo. Eu e todos os garotos nascidos nos anos 40 amávamos – e amamos – futebol, e o praticávamos nos terrenos baldios das nossas vizinhanças. Tal como os garotos de hoje, sonhávamos em chegar a ser um sucesso nesse esporte. E como nos esforçávamos para isso! Pouco a pouco fui percebendo que o meu relacionamento com a bola não era dos melhores. Ela tinha vontade própria e raramente atendia aos estímulos que lhe dava. Em suma, eu era um perna de pau. Fui, é claro, sonhar outros sonhos. Mas o futebol faz parte de mim. Torço, discuto, vou aos estádios, assino os pay-per-view das TVs fechadas e até há pouco tempo, enquanto a idade permitiu, joguei peladas nos fim de semana. Sou um brasileiro típico da minha geração.
O que será que tem a ver o sucesso, já mais que cinquentenário, do Pelé com minhas experiências e frustrações futebolísticas?
Fomos nós, os meninos dos anos 40, que possibilitamos – nós éramos a quantidade – que surgisse o Pelé, o Gerson, o Jairzinho – eles eram a qualidade. Ganhou o futebol e a autoestima nacional com as vitórias nos estádios e sua repercussão entre todos os brasileiros, que aprenderam cedo a amá-lo. Certamente você já percebeu a ideia e deve a estar criticando e alegando algo parecido com “já tivemos uma campeã mundial de tênis, a excepcional Maria Ester Bueno, nos anos 50 ou 60, numa época em que o tênis era incipiente no Brasil”. Isso são fenômenos da estatística que, aliás, nós perseguimos semanalmente ao jogarmos na Megasena, sabendo que a probabilidade de sucesso é infinitesimal, no mesmo sentido usado acima.
A matemática é a linguagem da ciência e da tecnologia, quem não a conhece no nível adequado às suas atividades é uma espécie de analfabeto. Boa parte do que fizer no trabalho ou no seu dia a dia será pelo uso da improvisação, do empirismo. Será como tocar um instrumento sem conhecer teoria musical, só se pode tocar de ouvido.
Se o Brasil pretende ser um país desenvolvido, é necessário que adquira competência em ciência e tecnologia. O esforço de incentivos para essas áreas até existe, mas aplicado na ponta superior do segmento, onde se espera que estejam os Gérsons, os Jairzinhos, os Pelés. No Brasil, os nossos cientistas, os mais brilhantes, são Marias Ester que surgiram na contramão da estatística.
Se quisermos desenvolver ciência e tecnologia, temos que buscar competência em matemática nos seus diversos níveis. Só assim veremos surgir os Pelés no assunto, não vale a pena continuar insistindo na Megasena. O assunto é importante demais para o Brasil, não dá para ficarmos arriscando uma aposta de 6,00 reais toda semana e esperando o bafejo da sorte.
Mesmo com a campanha deflagrada pelas entidades de representação profissional dos engenheiros quanto a uma futura falta de engenheiros no País em função de um desenvolvimento econômico recorde, e do eco que fazem as instituições que oferecem cursos de engenharia e que têm 70% de ociosidade em cursos dessa profissão, os jovens brasileiros não se animam a enfrentar um curso cuja base em matemática é fundamental.
A matemática ganhou fama de difícil, quase impenetrável. Muitos dos concursos públicos, ou não programam provas de matemática, ou a cobram de modo tímido, quase pedindo desculpas, sob a denominação de Raciocínio Lógico. Com o medo dos cálculos e do pensar com harmonia, fingimos que não precisamos da matéria, na posição típica de avestruz com a cabeça enterrada no chão e o rabo para o alto – e isso é um perigo.
Determinadas formações profissionais, que têm na matemática uma ferramenta importante, divulgam com frequência que estão em estudos alterações curriculares para retirar as disciplinas de matemática do currículo. Uma lástima e um atestado de burrice institucional, mas de esperteza dos donos dos cursos. Se pudessem fazer isso com a engenharia as salas estariam cheias.
Será a matemática de uso corrente, do dia a dia das pessoas, algo tão hermético? Claro que não. A disciplina é encadeada. O estudante tem que dominá-la passo a passo, evitando vazios na formação, isso em qualquer etapa. O problema reside principalmente na falta de valorização da matéria, desde o ensino fundamental. Boa parte dos professores desse nível não está preparada para ministrar aulas do assunto e aí entramos num círculo vicioso.   Nessa questão, um mau começo se reflete de tal modo que indisposições permanentes são criadas. Como consequência: matemática é impossível de aprender.
A saída é a reciclagem imediata dos docentes do nível fundamental e de todos os outros níveis. Valorizemos os jovens que dominam a matemática. Estabeleçamos certames e campeonatos. Prêmios, bolsas, estágios bem remunerados, reportagens nos jornais e na TV. Glamourizemos os que se destacam. Criemos os Pelés, os Gérsons, os Jairzinhos da álgebra, dos cálculos, da trigonometria, dos determinantes, da integração e da diferenciação. Tratemos a matemática como tratamos o futebol e o voleibol.  
Vamos jogar matemática? Pergunta o menino de dez anos ao amiguinho.
– Só se for regra de três, em soma de frações você é muito bom, não dá prá mim, responde o outro.
– Geometria então, nós dois sabemos resolver problemas de áreas.

Sonhar é preciso.

Para ajudar aos mais novos a entender:
1 - Gerson e Jairzinho foram campeões mundiais, juntamente com Pelé em 1970.
2 - Maria Ester Bueno foi campeã mundial de tênis nos anos 50. Era considerada um fenômeno nesse esporte, popular em todo o mundo e um orgulho nacional.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Futurologia (1928) – Energia no Brasil em 2000

O primeiro número da Revista O Cruzeiro foi publicado em 10 de novembro de 1928. A revista, referência da imprensa brasileira por muitas décadas, marcou gerações com suas matérias. Para situar os leitores mais novos, cito que a publicação semanal notabilizou personagens como o Amigo da Onça – expressão até hoje citada – criação do humorista Péricles; publicava também crônicas da escritora Rachel de Queiroz e reportagens do combativo David Nasser, que era além de jornalista um compositor de músicas de sucesso, até hoje relembradas. Para os que tiverem interesse, o site Memória Viva, http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro/ , disponibiliza diversos números da revista com matérias digitalizadas. Lê-las é uma viagem divertida e instrutiva ao passado.

Nesse primeiro número há para os engenheiros um interessante exercício de futurologia do Professor F. Labouriau, então catedrático de Metalurgia da Escola Politécnica do Rio de Janeiro, sobre a energia hidroelétrica, sua então provável evolução e os avanços que ela propiciaria. Confira, cotejando as previsões do Prof. Labouriau com a realidade deste ano de 2010.

Para facilitar a leitura e as comparações relaciono a seguir alguns dados de interesse:
  • 1 cv (cavalo-vapor) = 0,7355kW
  • Potencial Hidroelétrico do Brasil – inventário recente: 260 mil MW (350 milhões de cv)
  • Passível de exploração: de 70 mil MW a 120 mil MW
  • Potência instalada em 1928 (estimada): 350 MW (476 mil cv)
  • Potência instalada atualmente: aproximadamente 60 mil MW (82 milhões de cv)


A Éra das Forças Hydraulicas

Revista O CRUZEIRO 10/11/1928  Prof. Labouriau


Anno 2000.
A população do Brasil attingiu 200 milhões de pessoas a precisarem de energia para as suas multiplas actividades: compreende-se como essa necessidade levou ao aproveitamento das forças hydraulicas. Lentamente, medrosamente, a principio, essa utilização de energia se foi, depois, aos poucos accelerando. No anno 2000 já estão longe os tempos em que ainda se importavam carvão e petroleo! Esses recursos primitivos, condemnados pelo progresso da technica, foram desapparecendo, passando a constituir apenas uma recordação historica.
Os 50 milhões de cavallos-vapor de energia hydro-electrica, utilizados no Brasil, no anno 2000, equivalendo ao trabalho mecanico de 600 milhões de homens, a população brasileira, do ponto de vista energetico, é então computavel em 800 milhões. Nessas condições, não admira que sejam enfrentados e convenientemente resolvidos os problemas da producção. As questões nacionaes são, então, estudadas por gente competente, tendo acabado, ha muito, a influencia dos politicos profissionaes. A Natureza, dia a dia dominada, é cada vez mais perfeitamente aproveitada. A luta do homem para o progresso passou a ser travada especialmente nos laboratorios de pesquisa. Ahi é que perscrutam, pacientemente, os segredos da Natureza, e dahi é que saem os processos, cada vez mais aperfeiçoados, de dominio da energia cosmica. Como estamos longe dos tempos em que nem havia Universidade no Brasil, a nao ser umas instituições de fachada, formadas por escolas exclusivamente para ensino profissional, e onde a pesquisa scientifica não se podia fazer!
Todas as actividades industriaes foram avassaladas pela energia electrica. São as industrias electro-chimicas, num desdobramento maravilhoso; é a electro-metallurgia; é, ainda, a energia para tudo. As distancias desappareceram, por assim dizer, desde que se resolveu o problema de irradiação da energia.
Lembram-se todos como começou a ser resolvida essa questão. Foi, a principio, a radio-telephonia, logo seguida da radio-photographia. Pouco depois, irradiava-se energia pra fins industriaes, e os motores electricos com energia irradiada se installaram em todos os vehiculos: bondes, trens, automoveis, aeroplanos, navios; e em todas as fabricas; e em todos os logares onde a energia se faz precisa. O problema da distribuição da energia passou, desde então, a ser uma questão definitivamente resolvida.
Transformara-se, com isso, a vida, que Nietzsche affirmou ser, essencialmente, uma aspiração á maior somma de poder, numa vontade que permanece, intima e profunda, em todo ser vivo. A luta pela existencia, pelo poder, pela preponderancia, com a nova forma de distribuição de energia passara a ser uma luta pela posse da energia electrica. A importancia dos povos se alterara, sendo regida a sua classificação pelo valor das reservas em forças hydraulicas.
É assim que o 1° lugar passara a ser da Africa, com os seus 190 milhões de cavallos-vapor hydro-electricos. Em 2° logar vinha a Asia, com 71 milhões. A America do Norte, com 62 milhões, ficara em 3° logar, e a America do Sul em 4° logar, com 60 milhoes de cavallos-vapor hydro-electricos, dos quase 50 cabendo ao Brasil. A Europa, com 45 milhões de cavallos, ficara tendo atrás de si unicamente a Oceania, com 17 milhões.
Cabia agora o dominio aos povos que dispunham de maior somma de energia hydro-electrica. Passara o tempo do imperialismo do carvão e do petroleo, e chegara a era da energia electrica. Os 445 milhões de cavallos-vapor, em que se orçara a energia total das forças hydraulicas da Terra, passaram a regular decisivamente a importancia relativa das 5 partes do mundo.
Ainda ha, no anno 2000, philosophos a indagarem se o progresso existe, affirmando que o que interessa não é poder ser enviado o pensamento á volta da terra, em alguns segundos, mas sim saber se esse pensamento é melhor, mais profundamente humano, mais justo. A vida, em todo caso, mudou completamente. Melhor? Peor? - É difficil sabe-lo. Mas, seguramente, é differente. É a era da electricidade.        
A differença entre a vida de então e a dos anteriores é alguma coisa como a differença hoje existente entre a vida dss grandes cidades e a do campo. O ambiente é outro. Outra é a organização da vida. Cada vez o homem se afasta mais da Natureza. Primeiro, liberta-se do dia e da noite. A luz artifical permitte-lhe a vida nocturna absolutamente igual á do dia; a luz solar não é mais reguladora dos habitos quotidianos. A vida em grandes aglomerações vae, aos poucos, deixando em todos os habitos a sua marca. As facilidades augmentam para tudo e os multiplos actos da vida se vão, lentamente mas constantemente, adaptando á nova ordem das coisas. O tempo se distribue de outro modo, e os affazeres são outros. Outros são, tambem, os divertimentos. Insensivelmente, as differenças se vão accentuando.
As viagens e os proprios passeios diminuiram muito, desde que, sem sair de casa, pode-se ver o que ha em qualquer parte da Terra: a televisão, juntada á telephonia, modificou radicalmente os habitos. Não ha necessidade de sair para fazer compras: vê-se, escolhe-se, encommenda-se tupo pelo telephone-televisor automatico. Não ha mais necessidade de viajar, para ver terras longinquas: é só ligar o receptor, e visita-se, commodamente, qualquer museu, ou qualquer paiz. Sómente os objectos devem ser transportados.
Na era da electricidade o rei dos metaes é o aluminio, retirado das argilas pela energia electrica. O aluminio supplantou, com as suas ligas, o ferro, pesado demais e facilmente oxydavel, e ainda substitui o papel, tão facilmente deterioravel. De aluminio são os livros. É em folhas de aluminio que se escreve.
A era da electricidade se caracteriza, essencialmente, pelo emprego da electricidade em todas as formas de energia. Energia luminosa: tudo se iluminna electricamente. Energia chimica: tudo deriva da electricidade. Energia thermica: tudo se aquece ou se resfria pela electricidade. Energia mecanica: tudo se movimenta pela electricidade.
Servindo para tudo, a energia electrica passa a ser a nova moeda. O ouro e as suas representações são formas obsoletas de medir valores. A moeda, no anno 2000, é, tambem, a energia electrica. Pagam-se as compras em kilowatts. Paga-se o trabalho en kilowatts.
A revolução trazida é principalmente nos habitos. Continúa a haver desigualdades sociaes. Ha ricos, possuidores de milhões de killowatts-horas, remediados, que têm alguns milhares de unidades de energia; e pobres, que dispõem apenas de algumas unidades. É verdade que não ha mais fome, desde a adopção do trabalho obrigatorio minimo, nas usinas distribuidoras de energia. Mas as questões sociaes continuam.
Muitos pretendem estender o dominio da actividade industrial do Estado. Parece-lhes insufficiente o monopolio governamental das usinas geradoras e distribuidoras de energia. Começou a questão a proposito da regularização do clima. Uma vez reservada para o Estado a faculdade de provocar as chuvas pela energia irradiada ás nuvens, determinando-lhes a condensação, pareceu a muitos que se deveriam ampliar ainda mais as horas de trabalho obrigatorio minimo, servir-se-ia melhor a colectividade minima do trabalho. Só haveria vantagens nisso.
Objectam, porém, alguns ser o caso das usinas de energia, evidentemente, especial. Da mesma forma, o da distribuição das chuvas, vantajosamente affecto ás autoridades, para beneficio geral. A Repartição das Chuvas, dispondo de todo o serviço official de estatistica, e em connexão com os demais repartições do Ministerio da Agricultura, é uma organização que se resolveu dever ser do Estado. Ampliar, porém, ainda mais os serviços governamentaes, numa socialização progressiva de todas as actividades, não merece as sympathias de um grupo numeroso. Já todos os homens e todas as mulheres, maiores de 18 annos, são obrigados a um serviço diario de 2 horas. Breve serão 3 horas. Onde se irá para nesse caminho? Invocam-se contra as idéias de socialização os velhos principios da liberdade individual. A questão está, assim, longe de ser resolvida.
Sonho? - Sim. Mas o sonho de hoje poderá ser, amanhã, realidade. Sabe-se lá até onde nos levará a evolução que hoje se processa tão acceleradamente? Como será a vida no anno 2000?