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segunda-feira, 14 de março de 2011

Terremoto e acidente nuclear

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Eng. Civil Danilo Sili Borges

O mundo não será o mesmo após o terremoto no Japão.

Com intensidade de 9 graus na Escala Richter, o sismo foi um dos mais fortes dentre os já observados. Pode parecer irônico, mas a engenharia estrutural japonesa deve ser saudada. A tragédia teria sido ainda maior se as estruturas dos edifícios, pontes, viadutos e barragens tivessem colapsado, nas mesmas proporções do que se tem visto na ocorrência de sismos muito menos agressivos.
Os noticiários não têm mostrado pessoas soterradas sob os escombros de prédios que ruíram. Pelo que se tem visto esse não é um problema agudo na atual tragédia pela qual passa o povo nipônico.
As proteções com diques e muros para conter tsunamis foram insuficientes em presença da escala do fenômeno. Nunca se sabe o que a natureza reserva. Por mais que a tecnologia e a ciência sejam desenvolvidas o risco existe. É admirável a conduta da sociedade e do governo do Japão. Os serviços de atendimento continuam funcionando e não se vê cenas de inconformismo e desespero. Mais importante ainda, não se viram cenas de saques, tão comuns nessas situações. Esse admirável povo saberá dar a volta por cima. Enterrados seus mortos, limpos e reconstruídos os locais atingidos, a vida voltara ao normal para a disciplinada população.
Num prazo mais longo, um problema vai persistir e, provavelmente, alterar as relações sociais, comerciais e econômicas no mundo. A questão se prende ao colapso de três centrais nucleares em decorrência do terremoto. Estou redigindo este texto antes de saber se os técnicos conseguiram evitar que os reatores se fundissem, o que se ocorrer provocará uma contaminação ambiental de proporções gigantescas por décadas. De qualquer modo o risco de desastres com usinas nucleares existe e agora não mais se pode alegar que elas são quase cem por cento seguras.
A terceira economia do planeta é sedenta de energia, como o são as demais economias desenvolvidas. A energia é a causa da discórdia internacional. É por ela que guerras sangrentas se têm travado nos anos recentes, invasões de países sob argumentos mentirosos, barbárie, genocídio.
A energia proveniente das usinas nucleares abastece 30% da demanda japonesa. Os defensores da produção por via da fissão atômica alegam sempre a segurança dessas instalações, apesar dos acidentes de Three Mile Island, Pensilvânia, EUA, 1979 e Chernobyl, Kiev,Ucrânia, 1986. A verdade é que não há obra de engenharia 100% segura. Minimizam-se riscos, mas há sempre fatores imponderáveis que um dia poderão se apresentar, como um sismo de grau 9 e um tsunami decorrente. A indústria aeronáutica é um exemplo esclarecedor. Por mais que cuidem da segurança de seus produtos, por mais que as instalações de controle de voo e os aeroportos se modernizem para atender aos requisitos de segurança, eventualmente ocorre um desastre aéreo de proporções assustadoras.
A produção de energia deriva de poucas fontes: dos combustíveis fósseis, carvão, gás e petróleo; das águas represadas, as hidroelétricas; da produção agrícola, renovável, provenientes principalmente do milho e da cana; e outras de menor representatividade como a solar, a eólica, as devidas a marés e ondas, a nuclear.
A tragédia japonesa vai consolidar a certeza da inviabilidade da geração de energia por via de fissão atômica. É claro que qualquer tipo de produção energética pode gerar acidentes e provocar tragédias. Uma barragem pode colapsar sob os efeitos de um sismo e populações a jusante ficarão sujeitas a uma espécie de tsunami, mas suas consequências não perdurarão por décadas, ou por séculos e não se espalharão por área tão grande, como no caso de um acidente nuclear, vide Chernobyl.
Alguns países, como a Alemanha, já se deram conta para as consequências, e sob pressão de grupos de defesa do meio ambiente, tinha determinado desativar suas usinas gradativamente até 2022, mas a competitividade das economias industriais impede que isso ocorra e o governo da Chanceler Merkel, prorrogou a vida útil dessas usinas por mais oito ou quatorze anos além daquele limite, este para as usinas construídas após 1980. Com o desastre japonês a discussão voltou a se acentuar na Alemanha.
Insisto: Não há obra de engenharia 100% segura. O risco das usinas nucleares terem problemas com consequências de contaminação ambiental em larga escala sempre existe.
Se a humanidade tiver juízo, deve desativar todas as plantas de geração atômica de energia, num período curto. Assim como extinguir todos os arsenais de armas atômicas. Vou repetir, todos os arsenais, de todos os países, indiscriminadamente. As atividades e as pesquisas nucleares devem ficar restritas a aplicações médicas e outras que lidam com pequenas cargas e cujas falhas apresentem apenas consequências localizadas.
As pesquisas para geração de energia por outros processos devem ser aceleradas. O petróleo e o gás natural vão se tornando cada vez mais escassos e mais caros. Os que os  têm em seus subsolos não estão dispostos a cederem-no e lutarão para que não o tomem pela força.
Com o petróleo cada vez mais difícil, os aproveitamentos hidroelétricos se esgotando, a geração nuclear posta em cheque, só há uma saída: reduzir o desperdício, mudar os hábitos de consumo do chamado mundo desenvolvido, estimular a sobriedade. Isso alterará certamente o modo de produção de uma sociedade altamente consumista.
Os ricos do planeta entenderão essas questões? Serão capazes de mudar e se tornarem mais comedidos?
Tenho cá minhas dúvidas! Meus temores estão em que procurem dividir os recursos do planeta por um número menor de seres humanos. E aí, o genocídio em larga escala poderá ocorrer. Para se justificarem qualquer motivo serve. Temos exemplos recentes.