Senge-DF

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domingo, 29 de janeiro de 2012

Desabamentos assustam o Brasil

O desastre ocorrido no Rio de Janeiro sensibilizou todo o país. O desabamento de três prédios no centro da cidade levou medo à população que tem procurado as entidades de classe dos engenheiros, os Creas e os veículos de comunicação para se informarem sobre o que é permitido fazer em suas obras, o que devem observar em construções na sua vizinhança e a quem recorrer em suas dúvidas.

Sensível a essas preocupações, a TV Brasil convidou o autor deste blog, Engenheiro Danilo Sili Borges, para mostrar, no programa Repórter Brasil,  quais são as peças estruturais que não podem ser objeto de modificações numa obra sem a orientação de um engenheiro civil, especializado em estruturas. O procedimento é válido tanto para um edifício, quanto para uma casa, por menor que ela seja.
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sábado, 21 de janeiro de 2012

Engenheiro é doutor?



É permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e o endereço do blog

Engenheiro Danilo Sili Borges

Os frentistas dos postos de gasolina, os garçons, mesmo os dos mais finos restaurantes, e os pedintes que habitam as ruas das nossas cidades acostumaram-se a tratar clientes e possíveis doadores por “doutor”. Condicionaram-nos também ao tratamento cortês, mas que usado sem critério definido perde seu significado.

Pela tradição doutores são mesmo os médicos e os advogados, que a bem da verdade exigem fortemente o tratamento respeitoso. Também a ele fazem jus os que, de qualquer formação, alcançam esse grau pelos programas de doutorado das universidades. Estes, talvez pelo despojamento da academia, não são tão exigentes quanto ao seu título ser mencionado quando a eles nos dirigimos ou nos referimos, preferindo o de professor, como os técnicos de futebol, estes mesmo quando não tenham entrado uma única vez numa sala de aula, como aluno ou como docente.

Curiosamente, outras profissões, principalmente da área de saúde, talvez por similaridade com médicos, vão se impondo – e nos impondo – que sejam tratados como “doutores”. Todos aceitamos essa manifestação da vaidade humana, que afinal não nos dói nem um pouco, e que tanto gratifica o ego desses profissionais tão úteis.

E nós engenheiros, somos doutores?

Essa conversa me traz à lembrança o posicionamento do Engenheiro Dilson Carlos Rehem, que ao ver seu nome ligado ao título de doutor, invariavelmente, corrige e com a lhaneza que lhe é característica, solicita ser tratado como Engenheiro Dilson. Durante as muitas décadas que tenho tido a oportunidade de conviver com esse excepcional colega eu tive dificuldade de entender o que me parecia uma sutileza sem sentido, um requinte da sua verve baiana.

Levado a refletir sobre o assunto pela desvalorização que o engenheiro tem hoje na sociedade brasileira, comecei a perceber a luta de dom quixote do meu amigo Dilson, Engenheiro Dilson: O título de engenheiro caracteriza melhor a nossa formação e o escopo do nosso trabalho. Doutor aplicado a nós não diz nada, afinal. Engenheiro sim, diz muito como a profissão que cria e desenvolve a tecnologia que nos aumenta a saúde, a alimentação, as comunicações, em suma, o conforto, a segurança e a qualidade de vida das populações.

Para continuar a reflexão, tomemos os arquitetos que têm preservado e valorizado em suas campanhas profissionais o título de “Arquiteto”, que diz muito mais que doutor, se a eles fosse atribuído. No passado, quando a denominação de engenheiro estava em alta, chegamos a ter em nossas escolas o Engenheiro Arquiteto que, em sábia decisão, os arquitetos através de suas entidades aboliram. Os economistas também têm adotado o seu título profissional e polido, com cuidado, a sua marca, sempre presentes nos programas da TV a cabo, ou para fazer previsões, ou para justificar por que elas não ocorreram.  

Para começarmos a valorizar a engenharia, temos que fazer como o Doutor  Dilson Rehem: Engenheiro Dilson, por favor”.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Apito do Trem-Bala

É permitida a reprodução deste texto desde que citada a autoria e o endereço deste blog.

  Engenheiro Danilo Sili Borges
Para um observador desavisado o Brasil é ciclo-tímico. Há alguns meses a conversa na imprensa era a ligação entre Rio e São Paulo por trem de alta velocidade, do tipo do francês TGV – Train à Grande Vitesse – ou de  outros que percorrem seus trajetos a velocidades de cruzeiro em torno de 250 km/h. Chegamos a ter data de licitação e consórcios de empresas interessadas. A Justiça Federal suspendeu a licitação atendendo a ação impetrada por representantes de empresas rodoviárias. O trem bala caboclo, o TAV, está voltando a circular, por enquanto, nas páginas dos jornais. Decisão da 2ª instância da justiça permitiu que a contenda licitatória pudesse ocorrer. Do ponto de vista legal tudo ok.

Como engenheiro formado há quase 50 anos, assisti a opção rodoviária feita pelo Brasil, talvez a mais acertada naqueles idos anos 50 do século XX, quando se dizia que governar é abrir estradas. Não sei. Li e ouvi de mestres e colegas mais velhos o heroísmo de empreendedores como Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, e de engenheiros como o notável Paulo de Frontin que vencendo enormes dificuldades implantaram estradas de ferro que galgando a Serra do Mar levaram desenvolvimento e economia ao nosso interior, com técnica aprimorada. A minha primeira viagem pela notável ferrovia Paranaguá – Curitiba, construída pela nossa engenharia ainda no século XIX, me tirou o fôlego, pois dá ao passageiro a sensação de que o comboio avança pelo ar. Consta que reconhecidos engenheiros ferroviários europeus consideraram seu traçado impossível de ser concretizado.

Assisti constrangido e triste a chamada supressão dos ramais ferroviários antieconômicos, que decretaram a morte de tantas pequenas comunidades do interior. Um crime perpetrado pela visão curta de quem decide vendo apenas as planilhas de custos e receitas do serviço, mas sem olhar a economia como um todo.

Acompanho agora com preocupação as providências para a implantação do trem bala ligando as cidades do Rio de Janeiro a São Paulo, com uma única escala em Campinas. Uma opção ferroviária para atender apenas a passageiros e não a cargas, a um custo inicial previsto de 33 bilhões de reais, mas que pela tradição brasileira custará pelo menos o triplo.

Em uma situação como essa, o instinto do profissional engenheiro é o de perguntar se a solução proposta é a mais adequada, se atende às maiores necessidades das regiões envolvidas se analisarmos os benefícios em presença dos custos. Essa maneira de pensar é a da engenharia, apesar de nos últimos tempos nos procurarem relegar a meros tocadores de obras e a administradores de chão de fábrica. Até os projetos e estudos são agora muitas vezes comprados fora.

Como sempre, a pressa e a necessidade política de as obras terem a marca deste ou daquele governo impõem ritmos que nem sempre são os mais adequados para os estudos, projetos e execução de obras. No momento a Copa e as Olimpíadas justificam correrias e desatinos.

Alguém já deve estar perguntando: uma ligação ferroviária de alto desempenho entre as duas maiores regiões metropolitanas do país não é aconselhável? A óbvia resposta é SIM. Mas observadas certas condicionantes. Vamos a algumas:
1-      Trens de alta velocidade, como o mostrado pela imprensa naquela época, atendem apenas a demanda de passageiros e não a de carga;
2-      A região a ser atravessada pelas linhas do nosso TGV caboclo é uma das mais produtivas do país, e o transporte, como, aliás, no restante do território, é primordialmente rodoviário e, portanto, mais caro;
3-      Construir ferrovias e até mesmo material rodante não é um assunto tão novo para a nossa engenharia ferroviária, apesar do pouco caso a que ela está relegada há décadas.
4-      Dirão alguns, que hoje a coisa é diferente. “Os trens e seus controles estão no domínio da alta tecnologia”, como se tecnologia fosse coisa para prejudicar e como se seu acesso fosse permitido apenas para os gênios do hemisfério norte. “Complexo de vira-latas”, diria Nelson Rodrigues.
5-      Cometemos o mesmo engano no caso da TV digital, que poderia ter proporcionado um incentivo à pesquisa tecnológica nas universidades e centros de pesquisa. Compramos um pacote e até hoje dele não tiramos tudo o que o sistema pode dar. Sempre que adquirimos esses embrulhos, junto vem uma caixinha com a etiqueta “Transferência de Tecnologia”. Que é, regra geral, um engodo.
6-      Se não ficarmos atentos, e aos engenheiros é que cabe a maior responsabilidade por entenderem de trens, de infraestrutura e de tecnologia, repetir-se-á a mesma solução simples, rápida, cara e altamente prejudicial aos interesses nacionais.

Vou fechar aqui a minha opinião, não por julgá-la a melhor, mas para despertar entre os que a lerem, principalmente aos colegas engenheiros, reflexões e visão da necessidade de participarmos, como classe, dos assuntos que nos cabem. Ferrovias são imprescindíveis, principalmente se articuladas com os outros modais.
As novas ferrovias ou as que venham a ser remodeladas devem ter qualidade para suportar composições que trafeguem com velocidades de até 150 km/h. Paulatinamente, quando tivermos uma rede razoável, iremos ligar os centros urbanos pelos confortáveis trens de alta velocidade, mas nascidos da nossa inteligência.


A tecnologia necessária, poderemos desenvolver sem nenhuma dúvida. Se houver necessidade de imprimirmos maior velocidade contratemos fora técnicos reconhecidos como detentores desses saberes específicos e os aloquemos nos nossos centros de pesquisa. Não há demérito nesse procedimento, a prática é corrente no mundo.

Há muito mais o que dizer sobre o assunto. Alongar esta postagem está fora dos objetivos de um blog.

Fiquemos atentos, ciclotimia é assim, passada a fase de recolhimento virá uma de  exaltação. O trem bala recomeçará a correr pelos gabinetes, entrará pelos jornais e pelo noticiário das tvs, que mostrarão as maravilhas dos trens europeus, aguçando o desejo dos menos informados. Alguns interesses não explícitos se encarregarão da propaganda.

Ainda há tempo para os engenheiros, por meio das suas entidades, discutirem o assunto.

Já se ouve o apito do trem, ele está chegando, será que é esse que nos vai levar aonde queremos chegar?

Gostaria de receber aqui, ou no meu e-mail, opiniões sobre o tema. Vamos discutir.