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domingo, 19 de fevereiro de 2012

Gigantes com pés de barro. Edifícios que caíram inteiros

Eng. Civil Danilo Sili Borges


Fica autorizada a reprodução deste texto desde que citada a autoria e o endereço do Blog
Os recentes desabamentos de edifícios ocorridos neste início de ano no Rio de Janeiro e em outras cidades brasileiras aguçou o sentido da população. Até mesmo forros de gesso que se desprendem da laje são noticiados como desastres da engenharia. Na internet, voltaram a circular acidentes ocorridos no estrangeiro, dando exemplo de que obras de engenharia sempre têm risco, seja um edifício, um avião ou um navio. Causas naturais ou erros humanos na concepção, na construção ou na utilização dessas obras podem provocar o desastre, sempre doloroso e comovente pela perda e ferimento de seres humanos.
Há casos previsíveis, como as enchentes anuais no verão brasileiro com os consequentes escorregamentos de encostas. Esses problemas a engenharia pode, em grande parte, evitar, mas a execução das obras necessárias depende de decisões políticas e não técnicas. Não são, de fato, questões da engenharia e os riscos não podem ser a ela atribuídos.
Em favor da competência da engenharia estrutural internacional, cabe lembrar o doloroso terremoto no Japão que provocou outro sério desastre da engenharia, este por causas naturais, o tsunami, maior que os hipotéticos, usados na concepção da segurança da obra na fase de projeto da usina nuclear. Deve-se notar, no entanto, que a forte ocorrência sísmica causou limitados danos aos edifícios e demais obras da região atingida. Os milhares de óbitos não se deveram significativamente a desabamentos.
Dentre os acidentes mais veiculados através dos e-mails está o ocorrido na China, onde um edifício de 13 andares caiu inteiro, sem danos estruturais, por questões de fundação e de uma escavação para uma obra complementar a ser construída na proximidade.


“Após concluída a obra, cavaram uma "trincheira" de 4,60 m de profundidade para fazerem uma garagem subterrânea no lado sul e lançaram o material escavado no lado norte numa altura de 10m. Isso resultou numa diferença de carga de 3.000 toneladas entre o lado sul e o lado norte. Essa diferença foi além do que a fundação poderia suportar.

Uma seção mostrando a "trincheira" para entrada da garagem e o material escavado no lado oposto”

O acidente acima mostrado faz lembrar outro, em que o edifício, de 12 andares, também recém-construído, caiu por inteiro, por problemas do terreno de fundação, em janeiro de 1958, no Leme, Rio de Janeiro.  Em ambos os desastres não ocorreram vítimas. O Edifício São Luis Reis, na queda, destruiu duas residências, que haviam sido desocupadas previamente. Fotos abaixo.


 









O.




Conta-se que poucas horas antes da queda, quando surgiram os primeiros sinais dos problemas, um dos mais conceituados engenheiros brasileiros da época esteve no local e deu parecer dizendo que o recalque não levaria ao colapso imediato e que haveria tempo para que fossem executadas as obras de reforço. Infelizmente não foi possível, com os recursos da época, socorrer aquela obra, pertencente a uma entidade beneficente.
Os desastres deixam sempre ensinamentos que acabam se tornando prescrições de normas técnicas, correções de antigas ou estabelecimento de novas  teorias, que a ousadia do espírito humano sempre tentará superar.
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Logo após a postagem desta matéria, recebi do Eng. Civil Pedro Ricardo Castro, de Brasília, e-mail com sugestões de como aumentar a segurança da sociedade em relação a obras privadas e públicas. Esse assunto certamente será tema de discussão. A Lei 5.194/66 atribui aos engenheiros a defesa da sociedade como objetivo primordial do seu exercício profissional. Espera-se que as entidades de classe e o Sistema Confea-Creas comprem essa briga.
Devidamente autorizado pelo Eng. Pedro Castro anexo à matéria  suas pertinentes observações:

" Sei que você acompanhou de perto o que a mídia noticiou sobre os (ainda) recentes desabamentos no Rio. 
Duas coisas me causaram espécie:

1)

2) O não aproveitamento da oportunidade para a proposição de novas leis que determinem: a) cadastramento de cópias dos projetos de fundações, arquitetônico, estrutural e de instalações (todos "as built") nas municipalidades com número de habitantes acima de determinado valor (ex,: 200.000); b) vistorias técnicas periódicas, por profissional independente, em obras de concreto armado acima de determinado porte (incluídos edifícios, pontes, viadutos, barragens). Evidentemente, a lei deveria prever multas pesadas na eventualidade de atraso ou não realização do estabelecido, a exemplo do que ocorre em Nova Iorque (USD 50 mil por dia de atraso na vistoria, se não me engano).
Abraços,
Pedro Ricardo "