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domingo, 3 de março de 2013

Antártica, um depoimento


O Brasil é tão grande, tão necessitado de ações e atenções, que muitas vezes nos escapam fatos de importância que mostram nossa potencialidade e o valor inexcedível do nosso povo.
A questão da Antártica é um dentre muitos.
O relatório que abaixo publicamos, elaborado pelo meteorologista José de Fátima da Silva, em 1984, para o Inemet, seu órgão de origem, mostra o grau de dedicação e competência do pessoal que inaugurou a Estação Antártica Comandante Ferraz.
30 ANOS DE ESTAÇÃO ANTARTICA
Por:  José de Fátima da Silva

A expedição brasileira ao polo sul em 1983, marcou definitivo a entrada do Brasil na comunidade antártica. Foi uma conjugação de esforços entre a Marinha, Aeronáutica, universidades, órgãos do governo como o Instituto Nacional de Meteorologia-INMET e outros que de forma decisiva levaram a cabo esta missão, finalizando com a instalação da base polar Comandante Ferraz. A bordo do navio polar Barão de Teffé muita expetativas, discussões e palestras em busca de elucidar um pouco mais a missão, formatar com clareza a visão de equipe na construção da base e seus objetivos. Anos depois, acompanhei o crescimento, a expansão da base de 8 para 36 containers. Que maravilha, o nosso trabalho está dando frutos! Tudo para melhor acondicionar os cientistas, pesquisadores e técnicos em busca de melhores resultados em suas pesquisas. Foi com tristeza e espanto que li nos jornais a destruição da base, além de perdas humanas todo o acervo técnico perdido. Não cabe a mim  fazer juízo sobre o fato, pois tenho certeza de os homens que atuavam na base eram homens convictos e sabiam de suas responsabilidades. Sei também das dificuldades de operação, da superação material que acontece quando o ideal se torna uma bandeira capaz dos mais altos sentimentos. Rendo aqui minhas sinceras homenagens a esses que perderam a vida por quererem dar o melhor para a missão. Fico muito honrado em poder compartilhar a saga de um funcionário que acreditou nesta bandeira enviando o relato da missão, ao seu órgão de origem INMET. Desculpem-me pela simplicidade, acredito ser um relato histórico:

ESTAÇÃO ANTARTICA "COMANDANTE FERRAZ"                                                               
19 de Fevereiro de 1984
Prezado Diretor e colegas  do INEMET.
A Base Brasileira na Antártica é uma realidade. Montada por doze homens (seis civis e seis militares.) que, num esforço comum, puderam, em dez dias perfilarem-se diante do Pavilhão Nacional para o ato final de inauguração da Base Brasileira no Continente Antártico, situada a 62º 05'S e 58º 23' 05”W,  localização feita pela Diretoria de Hidrografia e Navegação do Ministério da Marinha, com precisão de quatro metros quadrados.
Apos a cerimônia de inauguração, cada elemento procurou estabelecer as suas funções específicas. Os militares, à frente o Cmt. Edison, como coordenador das atividades da base, o Capitão-Tenente Dr. Mansilla, como Imediato, o Sgt. Ferreira, como Operador de Máquinas, o Sgt. Hygino, como Eletricista, o Sgt. Sinval, como Rádio Operador e o Cabo José Serja, como Cozinheiro.
Entre os civis, os dois alpinistas, Adi e Peter,  incumbiram-se das tarefas de reconhecimento das áreas de segurança. Abrahão e Hadano instalaram os equipamentos de pesquisa de propagação de ondas na baixa ionosfera. O Engenheiro Roy cuidou da manutenção da estação.
No âmbito da Meteorologia, para mim, foi altamente gratificante, o prestígio a consideração e o reconhecimento que me dispensaram, tendo sido inclusive solicitado a proferir uma palestra na Praça D’Armas do navio, com a presença do CMT. Adrião, Cmt. Fernando, Cmt. Edison e demais oficiais do navio.
O nosso colega de expedição, Meteorologista Expedito Ronald Gomes Rebello, explanou sobre a experiência obtida em sinótica quando da travessia do DRAKE, região de grandes perturbações meteorológica e sobre o tempo ocorrido durante a viagem.
A minha exposição, versou sobre o INEMET, estrutura, funcionamento e objetivos, expansão da rede de estações sinóticas, automação do Centro Regional de Telecomunicações de Brasília e os objetivos principais da Meteorologia no Projeto Antártico. O desempenho técnico nos trabalhos meteorológicos foi muito bem visto pelo pessoal do Programa Antártico, o que me deixou muito à vontade para continuar o modesto trabalho de medir e analisar o tempo. Tenho saído frequentemente, na madrugada, para observar ventos de até 120 Km/h, muito comuns nesta região, por isso, me chamam de BRUXO.
Por razões de logística e outras considerações, a Base não foi montada no local pretendido em DORIAN BAY, no paralelo 65º. Onde estamos é uma região sub-antártica, próximo da Base Polonesa Henrique Arctowski, na Baía do Almirantado.
A beleza natural é uma coisa fantástica, só comparada às paisagens de cinema.
Eu não consigo sentir solidão, ao contrário, o silencio me estimula cada vez mais a observar o clima e o comportamento animal e, às vezes, reflito muito sobre a necessidade de conviver com esta natureza tão fria e misteriosa.
Aos colegas peço desculpas por me alongar tanto, minha intenção foi dar um resumo de todo este empreendimento no qual fui participante ativo e dedicado.
Estejam certos de que o INEMET foi bem representado nesta missão.
    Um abraço a todos
         José de Fátima da Silva


Deixo aqui meus cumprimentos a todos que nesses  30 anos participaram montando, pesquisando, ajustando as condições materiais da base, para melhor desempenho da MISSÃO ANTÁRTICA.

Que estes pioneiros, em tão nobre missão,
não sejam esquecidos!!!