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domingo, 14 de abril de 2013

Inovação, verdades e mitos

O texto abaixo foi publicado na Revista Voz do Engenheiro, edição de março de 2013, do Sindicato dos Engenheiros do Distrito Federal,

Eng. Danilo Sili Borges


Por que somos tão inovadores no futebol, e tão pouco em outras atividades?
Neymar, por exemplo, é um fenômeno futebolístico, que floresceu devido às condições que lhe foram dadas desde a infância.
O espírito inovador é característica que distingue o homem das outras espécies animais. Fazer melhor e com menos esforço foi o que nos trouxe até aqui, através das eras.
No Brasil, inovação com resultado econômico, é questão interna das empresas. Há, no entanto, incentivos financeiros para implantá-la. A Cartilha de Apoio à Inovação – BNDES mostra como recursos baratos, reembolsáveis em longo prazo e mesmo não reembolsáveis podem ser acessados.
As empresas brasileiras, em geral, não são inovadoras. Entendeu-se que com recursos atrativos elas poderiam alterar suas estratégias de produção e de inserção nos mercados. O banco de desenvolvimento até veiculou propaganda, divulgando os incentivos, mas não foram percebidas inovações significativas na média das nossas empresas.
No futebol, somos criativos e, consequentemente, competitivos. Esse fato compõe a identidade nacional. Há muito deixamos de ter o “complexo de vira-latas” nesse esporte. Sem esforço, lembrarmo-nos de Pelé, Kaká, Ronaldinho, Ronaldo Fenômeno.
Que fatores estão ausentes em outras atividades que as tornam não inovadoras?
Inovação é feita por pessoas talentosas, preparadas por meio de educação e treinamentos. O aprendizado deve começar em tenra idade e o ensino ser competente e agradável.
Reflita: Com os seus quase 200 milhões de habitantes nenhum brasileiro foi agraciado com o Prêmio Nobel, conferido anualmente. Você se lembra de algum brasileiro que se tenha destacado mundialmente pela sua inventividade, excluindo os atletas?
Existem, sim, compatriotas que se destacam como inovadores em importantes campos do conhecimento humano. Vamos citar dois: Henrique Malvar, engenheiro graduado na UnB, de onde também foi professor, hoje é cientista chefe da Microsoft; outro é Miguel Nicolelis, médico neurologista, premiado professor da Duke University, Duham, USA.
São poucos os que conseguem suplantar as dificuldades não removidas do caminho dos talentos nacionais.
Inovação, como neste texto entendida, é tarefa das empresas que pretendem manter e aumentar seu mercado. As condições para que isso ocorra dependem de políticas de estado, de longo prazo, que perpassam governos. Só estadistas se preocupam com isso.

A mais importante delas é educação, a começar da pré-escolar e por todos os demais níveis. Os brasileiros mais competentes e vocacionados para a docência deveriam estar nas salas de aula, para interagirem com as mentes dos jovens ávidas por saber. Para isso, três condições devem ser cumpridas: 1- o reconhecimento social da docência; 2- remunerações para atrair os melhores e compatíveis com a importância da tarefa; 3- ambientes e equipamentos da melhor qualidade. Estamos falando de preparar o futuro do país. Nenhum objetivo estratégico pode ser melhor que esse. Em duas décadas a nossa realidade econômica, cultural e social estará modificada.
O sistema público de ensino será referência, como já foi. Nele existirão vagas para todos os jovens. Do ensino particular exigir-se-ão as mesmas qualificações.
Frequentemente nos defrontamos com a hipocrisia das estatísticas do ensino superior. Cursos sem qualidade são autorizados a funcionar para que autoridades divulguem que temos um determinado percentual da população na universidade. Mas em qual universidade?
O resultado do último exame nacional da OAB, publicado em janeiro de 2013, esclarece. Nesse exame foram aprovados 16,67%, dos 114763 inscritos, faltando ainda o resultado da prova subjetiva. A nota do sistema educacional, no que se refere ao ensino do Direito, se a escala fosse de dez, seria inferior a 1,7. Reprovado. Será diferente na formação das demais profissões?
Nas ciências puras, a inovação é a ampliação do conhecimento da realidade física ou humana. Nas áreas aplicadas, na tecnológica, por exemplo, é diferente, a inovação está na criação de produtos e processos que preencham necessidades do mercado e tem valor econômico. É objeto de compra, de venda e até de espionagem. Isso compreendido haverá muito espaço para a universidade colaborar eficientemente com a inovação nas empresas.
Para deixarmos de ser, quase exclusivamente exportadores de commodities, dependemos de políticas de governo constantes de um projeto de nação que contemple câmbio, comércio exterior, política industrial, defesa nacional e necessariamente educação e inovação.
Ouve-se sempre que as empresas brasileiras investem pouco em inovação. Além das razões expostas que outros fatores levam a isso?
Empresas inovam para manter e ampliar seus negócios. As que operam no mercado global inovam para competir globalmente e criam mecanismos de inovação internos e isso é caro. As que operam apenas no país, com algum grau de proteção de mercado, podem comprar “inovações” de empresas de outros mercados. As aspas indicam que a última e verdadeira inovação, a galinha dos ovos de ouro, nunca está à venda.
Outro mito é a transferência de tecnologia. O resultado do esforço de inovar não está à venda junto com o produto que ela gerou. Cada empresa que crie competência para desenvolver suas inovações. Fora isso é dependência tecnológica e adeus à soberania.
Inovação, como quase tudo, depende de prática. Estamos ainda no estágio de construirmos a infraestrutura do território. E isso dá boas oportunidades para praticarmos a competência em inovação. Raramente fazemos isso. Dois exemplos: 1- O sistema de TV digital. Oportunidade perdida para criar grupos de pesquisa ao compramos o sistema no exterior; 2- Trem de alta velocidade. Oportunidade que está escoando pelas nossas mãos. Para fazer humor negro, um desastre ferroviário.
Podemos reforçar equipes de pesquisa tecnológica com a contratação de experts estrangeiros. Já fizemos isso com êxito. Citemos dois casos: 1- O da Embraer que nasceu da competência técnica do ITA, que se formou a partir da contratação de engenheiros aeronáuticos americanos, nos anos 50 do século XX – um resumo da história da empresa pode ser lido no livro O Crea-DF no tempo de Brasília; 2- na mesma época a Petrobras, nos seus primeiros anos, contratou o geólogo, Walter Link,  que orientou os passos da empresa e tomou medidas para a formação do seu pessoal técnico.
Inovação se faz com pessoas e ideias. Há muitas justificativas para nossa insuficiência como inovadores, coisas do tipo “temos poucos pesquisadores” ou “nossa indústria ainda não se tocou para a importância da inovação”.  Muitas das medidas tomadas para incentivar a inovação são, como é comum no Brasil, a de tentar resolver os problemas pelas consequências e não pelas causas.