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quinta-feira, 27 de março de 2014

Economia real, economia de papel e economia de conversa

Artigo publicado no Voz do Engenheiro, jornal do Sindicato dos Engenheiros de Brasília -SengeDF

Engenheiro Danilo Sili Borges
Os países realmente produtivos, os que possuem indústria, agricultura e serviços eficientes, estão se dando bem. A Alemanha, em plena crise europeia e passadas poucas décadas da dispendiosa unificação da nação germânica, continua equilibrada economicamente e puxando os demais países europeus para tirá-los do atoleiro. Como para isso é necessário seriedade, trabalho e renúncia a artifícios e fantasias, muitos países daquele continente têm reagido às suas prescrições e pressões.
Há alguns meses, importante autoridade brasileira pretendeu ensinar aos germânicos a tirar a Europa da crise, aumentando o consumo sem atentar para o necessário equilíbrio econômico. Ninguém a levou a sério.
A China é outro exemplo. Constituiu poderoso parque industrial em poucas décadas e é hoje país líder, apesar das conhecidas contradições entre a economia capitalista e o regime político autocrático.
Poderiam ser lembrados os êxitos de outros países asiáticos. Em todos os casos, a produção competitiva é a pedra de toque.
Claro que restrições a esse ou aquele modelo político ou econômico são cabíveis, mas não é disso que se está tratando aqui.
O Brasil, na área de produção agropecuária, certamente é também um exemplo de economia real, com desenvolvimento lastreado no trabalho, no investimento inteligente, na ciência   e na tecnologia.
Economia real é aquela que se baseia na produção, que equaciona e resolve as questões da sociedade com soluções de longo prazo, resultado de planejamento consistente e de trabalho.
Os Estados Unidos, apesar de toda sua riqueza e poder, durante décadas têm deixado escapar parte significativa do seu sistema produtivo para a Ásia. Consideráveis parcelas de seus fatores de produção emigraram. Questão de produtividade, principalmente, devido a salários.
Percebe-se que a economia americana não vai bem, apesar do insuperável desenvolvimento científico e tecnológico do país. Episódios de insucesso da economia de papel, como o sempre lembrado case das hipotecas imobiliárias, vão corroendo a credibilidade daquela economia.
A economia de papel, aquela que movimenta valores puramente escriturais, sem o lastro da riqueza material, real e palpável, pode até ser muito conveniente em alguns poucos casos.
Os Estados Unidos são o exemplo pronto e acabado do que se afirma. Em Bretton Woods (1944) o dólar passou a ser a moeda para as transações internacionais e o governo americano garantia sua paridade com o ouro. Em 1971, o presidente Nixon rompeu de vez a paridade dólar-ouro e de forma definitiva impôs à economia global sua moeda como o meio das trocas comerciais entre países, tornando o dólar como uma “quase riqueza” e, por consequência, formidável reserva de valor.
  
Ao substituir o lastro em ouro, a aceitação do padrão dólar estava assente em alguns pilares: em primeiro lugar, a credibilidade do país após a 2ª Guerra; sua pujança econômica; sua capacidade bélica de fazer com que todos rezassem pela cartilha da moeda verde. O dólar tem dado, a quem o tem emitido por décadas, imensa alavancagem no desenvolvimento, e sem inflação apreciável, tendo em vista a procura obrigatória que a moeda tem por todo o globo. Mas talvez tenham esticado demais a corda da economia do papel verde.
O atual presidente americano vem procurando reconstituir o poder fabril do país, fazendo apelos para o retorno das indústrias e incentivo para a formação de mais engenheiros.
No Brasil, diariamente vemos na imprensa escrita, televisada e na internet um sem número de análises econômicas, ora com previsões, ora com justificativas pela não ocorrência daquelas. Esse é o campo da economia de conversa: “o BC faz leilões de dólares para evitar a desvalorização do real”; há alguns meses o mesmo BC “entrava comprando dólares para evitar que o real se sobrevalorizasse”; “temos reservas em dólares para bancar o jogo do mercado de câmbio” e outras manifestações do gênero. Ações de política econômica deveriam, na realidade, estar traduzindo operações da economia real e protegendo-a. Temos demasiadas jogadas financeiras e produção e seriedade de menos. Enquanto isso, sentimos na pele as consequências de um país com péssima e insuficiente infraestrutura e com a produção caindo.
O que por aqui se fala de economia real são concessões de exploração de rodovias, de aeroportos, do pré-sal. Tudo feito com muita pressa, para facilitar a entrada de dólares para equilibrar a balança e o investimento, que é pífio.
Quem não emite dólares tem de produzir bens reais em quantidade, com qualidade e produtividade, caso contrário, submerge na competitiva economia global.

Economia real é o que os engenheiros sabem fazer.  O blá, blá, blá da economia de conversa mole têm inevitável encontro marcado com a verdade. Quem não produz, ou não produz bem, acaba no buraco.

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