Senge-DF

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domingo, 5 de março de 2017

Corrupção, uma especialidade da Engenharia?


Matéria publicada originalmente na Revista Voz do Engrnheiro do SENGE-DF
Eng. Danilo Sili Borges

Mea Culpa, Mea Maxima Culpa. Palma da mão direita aberta e três pancadas fortes no peito. Espórtula significativa negociada com autoridades eclesiásticas e, além de tudo, juras de arrependimentos eternos: daqui para frente não mais errarei.
O arrependimento sincero apaga todas as culpas? Todos os danos causados, os males pelos crimes perpetrados durante décadas, ficam esquecidos e perdoados pela declaração do Mea Culpa e de um punhado de moedas?
E se o arrependimento não for tão sincero e tiver sido obtido por estar o pecador posto a ferros na masmorra da inquisição, isso ainda vale?

“DESCULPE, A ODEBRECHT ERROU” (....)
“O que mais importa é que reconhecemos nosso envolvimento, (.....) não admitiremos que isso se repita.”
(Pequeno trecho de documento público divulgado pela construtora)

Neste espaço, cedido pelo Senge, falamos de engenharia e não de questões religiosas. Durante décadas dos meus 52 anos de profissão, ajudei a formar engenheiros nos bancos das faculdades: ciências que embasam a profissão; um pouco das matérias práticas e das artes sempre presentes no dia a dia profissional. O mais importante, no entanto, foi levar àqueles moços e moças a extensão dos princípios éticos e morais que eles já traziam de suas famílias pobres, médias ou abastadas, ao trabalho. Ao trabalho de engenharia que, regra geral, lida com vultosas importâncias e interesses públicos. Engenheiros são agentes insubstituíveis do desenvolvimento de uma sociedade. Devem atuar com honestidade e competência.
Diz-se que o engenheiro é o profissional capaz de fazer com cem reais o que qualquer um poderá fazer com mil reais. Esse é, em síntese, o vínculo da engenharia com a economia. Rompido esse princípio, não se tem engenharia de boa qualidade ou não se tem engenharia.
A corrupção nas licitações de obras e serviços de engenharia leva exatamente ao rompimento dessa equação, nada sutil, entre engenharia e economia real. Orçamentos super dimensionados, superfaturamentos, propinas conduzem a não-engenharia.
Daqueles jovens estudantes, ao se formarem, muitos foram recrutados por certas empresas – quase quadrilhas – como agora  sabemos.  Alguns deles estão listados nas dezenas ou centenas de pessoas implicadas nas falcatruas e fazendo “delações premiadas”. Para nós, que lidamos com eles quando jovens e idealistas, tendo na profissão para a qual se preparavam sincero interesse e respeito, tudo isso nos soa profundamente triste. Não sei o que será dos seus futuros se tiverem que trabalhar na engenharia de verdade, aquela com compromissos com custos e com competitividade. É possível, que alguns estejam tão ricos que não se preocupem com isso. Só espero que consigam dormir com tranquilidade. Desconfio que o Mea Culpa não limpe as manchas da consciência.
Para encerrar, teço algumas considerações:
1 – O desserviço que as empresas corruptas prestaram à formação dos engenheiros brasileiros é incalculável. Gerações se formaram certas de que atividades de engenharia e corrupção estavam sempre e inevitavelmente de mãos dadas;
2 – Sob o falso argumento de que as empresas faltosas geram milhares de empregos, usa-se o instrumento da leniência para preservá-las. Pelo contrário, obras superfaturadas, propinas e desvios tornam as obras muito mais caras e os recursos públicos são dilapidados, gerando-se menos obras e menos empregos. Os argumentos são falaciosos.
3 – Os eventuais conhecimentos tecnológicos de domínio dessas empresas, na realidade, estão nas cabeças dos engenheiros que os criaram ou que com eles trabalharam e que sem dificuldades poderão levar consigo para onde forem. Isso não é motivo para preservação das recém “convertidas” à ética empresarial.
4 – O jogo de cartas marcadas, os cartéis, impediu o surgimento de outras empresas que teriam oxigenado o ambiente de negócios e de criatividade tecnológica da atividade.
5 – É bom que se saiba que cartéis existem não apenas entre as 5 ou 6 macro empresas que operavam na Petrobras e nas maiores obras do país. Mesmo em empreendimentos públicos menores, estaduais e municipais, o modelo se repetia, (ou se repete) impedindo o surgimento de novas empresas, de mais competição e, por consequência, de mais oportunidades para os engenheiros.


E, que se for o caso, “que Deus os perdoe, mas que a nós não desampare!”